Tenho a certeza de que voltarei a ler Os Anos em breve, porque continuo a pensar nele constantemente, no entanto tenho tido uma vontade crescente de ir explorando mais livros da Annie Ernaux e, por isso, aproveitei um sábado sem planos para ler O Acontecimento, que comprei na altura do meu aniversário. Sabia que este não seria um livro fácil de ler, pelo tema que aborda, mas contava com a sinceridade visceral da Annie Ernaux e não me desiludi.
Vamos a algum contexto sobre este romance/auto-ficção: O Acontecimento foi escrito em 1999, publicado originalmente em 2000, mas passa-se em 1963. Então com 23 anos, uma jovem universitária com um futuro promissor descobre que está grávida. Desde logo, sabe que não pode ser mãe naquele momento, sabe que não quer ter aquele bebé. Os seus planos de vida não incluem ter um bebé com aquela idade e está decidida a abortar. Só há um problema: em 1963, o aborto era ilegal em França. Como sabemos, ser ilegal não significa que não seja feito; significa, isso sim, que é feito com muitos mais riscos e menos segurança. Ao escrever sobre este acontecimento quarenta anos depois, as memórias parecem tão presentes como se tivesse vivido aqueles momentos há poucos dias, mas trazem a carga de reflexão que só o tempo permite.
Fui lendo o livro ao longo da tarde. Não chegam a ser 90 páginas, escritas de forma apelativa e sem floreados, mas são páginas intensas, que obrigam a algumas pausas, na maior parte das vezes para pensar sobre aquilo que estamos a ler. Lembro-me perfeitamente de quando houve o referendo para a despenalização do aborto em Portugal, em 2007. Falávamos disso nas aulas também. Uns anos mais tarde, em Filosofia, tive de escrever um texto de argumentação que defendesse uma das posições em relação ao aborto. Só conseguia defender realmente um lado, por isso lá fui eu defender que uma mulher deve, sim, poder escolher se quer ou não quer que o embrião se desenvolva e se torne um bebé.
Honestamente, há temas em que me sinto tão convicta da minha opinião que me custa ver opiniões contrárias não fundamentadas com noção e este é um desses temas. Aos 12, aos 15, aos 18 ou aos 30, nada me faz mais sentido do que uma mulher poder decidir se quer prosseguir com uma gravidez, pelos mais variados motivos, tal como uma mulher terá os mais variados motivos para querer interromper uma gravidez. Não acho que seja algo feito de ânimo leve, como muitos pensam, e acho que deve deixar marcas psicológicas gritantes, mas ter um filho que não se quer também o faz.
Lembro-me de ver os resultados do referendo de 2007 e questionar-me sobre como é que tantas pessoas podiam ser contra. Analisando agora, o patriarcado, as mentalidades mais fechadas e a influência da Igreja terão pesado em muitas zonas, mas lembro-me sobretudo de ter pensado que aquele resultado era bom. Um direito finalmente adquirido que nunca mais pensaria voltar a ver como tema de debate. Mas, quase vinte anos depois, sabemos que os direitos adquiridos podem ser novamente ameaçados e vê-los ser discutidos um pouco por todo o mundo assusta-me. Quantas mulheres teriam de voltar a arriscar a vida para fazer um aborto se este fosse ilegalizado novamente?
Em França, as discussões sobre a legalização do aborto começaram uns anos depois de Annie Ernaux ter feito o ser aborto ilegal. O maio de ‘68 trouxe o tema à discussão e em 1975 passou a ser legal. Em 2024, a França tornou-se o primeiro país do mundo a incluir o direito ao aborto na Constituição. Se fosse hoje, Annie podia ter feito um aborto em segurança e com relativa facilidade, até às 14 semanas de gestação. Mas em 1963 esta vontade não era fácil de cumprir.
Quando estou a escrever, devo resistir, de vez em quando, ao lirismo da raiva ou da dor. Não quero fazer neste texto o que não fiz na vida real nesse momento, ou muito pouco: gritar e chorar. Apenas o facto de permanecer o mais perto possível da sensação de uma travessia expõe um mal-estar idêntico ao que me foi transmitido pela pergunta de uma farmacêutica e pela imagem de uma escova de cabelo ao lado da bacia com água onde mergulhava uma sonda. Porque a perturbação que sinto ao rever imagens, ao ouvir de novo certas palavras, nada tem que ver com o que senti então, trata-se apenas de uma emoção escrita. Quero dizer com isto: que permite a escrita e que constitui nela o sinal da verdade.
A leitura de O Acontecimento foi angustiante. Ler sobre a consulta e as conversas que a Annie-narradora ia tendo e ver como ninguém se prontificava a ajudar, quase agindo como se fosse incómodo pensar no assunto, deixava-me nervosa e preocupada como se fosse algo a acontecer neste momento. Quem é que a vai ajudar? Como é que a vão ajudar? Todo o processo de aborto é, também, muito complicado de ler, claro, mas foi no pós-aborto que a angústia passou a uma certa irritação, quando de repente já surgiam opções mais perto e mais baratas e que podiam não ter tido tantos problemas. Então é nisto que dá o aborto não ser legal? Porra. Não preciso de dizer que adorei o livro, pois não? É uma leitura forte, visceral, marcante e determinante. Só não parto numa investida literária por toda a obra da Ernaux porque, pronto, os meus outros livros julgar-me-iam por, em fevereiro, já estar a deitar por terra os meus objetivos literários do ano. Mas, aos poucos, sei que irá acontecer. Fica o desafio para a Livros do Brasil ir editando os livros que falta traduzir.
Ao terminar, desejei que houvesse uma máquina do tempo que me permitisse ir aos anos 60 abraçar a Annie e pedir-lhe desculpa, como se eu tivesse culpa, por tudo o que teve de passar e por vários lugares do mundo andarem, novamente, a discutir esta questão. É que parece-me surreal pensar que, em pleno século XXI, continuamos a discutir a escolha individual sobre o corpo da mulher como se o corpo da mulher fosse algo público, sobre o qual qualquer pessoa tem juridisção. Ah, como um livro de 1963 traz reflexões tão atuais!
Título original: L’événement
Título em português: O Acontecimento
Autora: Annie Ernaux
Ano: 2000 (PT: 2022)
Editora: Livros do Brasil
Lido a 31 de janeiro de 2026


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