À medida que avanço na obra de Gabriel García Márquez tenho tido sensações contraditórias. Umas vezes quero acelerar e ler mais livros por ano, outras vezes quero racionar a leitura e ler pouco para me sobrarem livros para mais anos. Este é o décimo terceiro livro que leio do García Márquez. Em casa, sobram-me três. Vou mais ou menos a meio da bibliografia, há muitos outros por comprar. Mas li a maior parte destes livros no espaço de cinco anos e fico mesmo a questionar-me sobre se devia acelerar ou abrandar. Neste momento, estou na fase em que quero acelerar, comprometer-me mais — o meu compromisso há dois anos foi não comprar mais livros dele enquanto não tivesse lido os que tenho em casa. Como o universo acaba por conspirar a nosso favor quando sabemos o que queremos, calhou sortear A Hora Má para ler em fevereiro.
Achava que me esperava um livro denso, difícil de ler, pelo menos era isso que me tinham dito. Sei que a escrita do Gabo acaba por exigir algum tempo, alguma disposição, mas, neste caso, encontrei uma novela bem diferente daquilo que esperava. A Hora Má, publicado originalmente em 1962, começa no dia em que César Montero mata Pastor. O motivo? Um pasquim pregado à porta de casa que indica que Pastor é o amante da mulher. Este é o primeiro de muitos pasquins que aquela pela localidade colombiana verá, até que se decide que os pasquins podem ameaçar a paz que se vive no pós-guerra civil.
Este é um livro que até para o autor não é fácil de definir. Não agradou de imediato à crítica, não agradou totalmente ao autor quando foi publicado e, no entanto, enquanto avançava pelos capítulos ia ficando cada vez mais maravilhada com aquilo que lia. A Hora Má tem algumas fragilidades. Acho que precisava de ser um pouco mais longo para que isso permitisse que as personagens tivessem mais espaço para crescer, algo que iria ajudar a história a funcionar melhor. No entanto foi por notar fragilidades que fiquei ainda mais fascinada.
Por um lado, A Hora Má volta a referir Macondo antes de Macondo existir em Cem Anos de Solidão e estes pequenos easter eggs da obra de García Márquez nunca vão deixar de me fascinar. Por outro lado, noto cada vez mais as subtilezas da escrita do Gabo, aqueles detalhes que fazem a diferença, e não consigo deixar de ficar surpreendida com a genialidade deste homem. Não recomendaria a quem nunca leu ou leu pouco — acho que há alguns livros do Gabo que funcionam melhor para quem já tem algum conhecimento da obra —, mas é um daqueles livros que dão certezas, que fazem perceber por que motivo García Márquez é um dos melhores de sempre.
Há muito trabalho envolvido na escrita do Gabo e livros como o Cem Anos ou Tempos de Cólera mostram-no de forma irrepreensível, mas também há algo que, sozinho, não chega: talento. Ora, o talento não faz um bom livro, claro, mas dá aquele toque especial que nos faz perceber como é que um escritor se distingue tanto dos seus pares.
Título original: La Mala Hora
Título em português: A Hora Má
Autor: Gabriel García Márquez
Ano: 1962 (PT: 2008)
Editora: Dom Quixote
Lido entre 2 e 4 de fevereiro de 2026


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