Já não sei ao certo como decidimos que a Chimamanda Ngozi Adichie seria uma das três autoras que queríamos ler em 2026, mas tenho quase a certeza de que a escolha se prendeu como o facto de, em 2025, ter saído Inventário de Sonhos, um livro que ambas queríamos ler. Curiosamente, quando sorteámos, foi o primeiro livro da autora a sair. Tinha muita vontade de voltar à ficção da Chimamanda, visto que tanto Americanah como Meio Sol Amarelo me marcaram pela positiva, e este livro trazia uma premissa promissora.
Inventário de Sonhos é narrado por quatro mulheres. Primeiro conhecemos Chiamaka, que é uma escritora nigeriana e vive nos Estados Unidos. Depois vem a sua melhor amiga, Zikora, uma advogada de sucesso que dá por si numa encruzilhada. Temos ainda Omelogor, prima de Chiamaka, ousada e importante no mundo financeiro nigeriano, e Kadiatou, empregada doméstica de Chiamaka, que foi da Guiné para os Estados Unidos, onde está a tentar dar a melhor vida possível à filha.
Há algo inegável: a escrita da Chimamanda é muito agradável, lê-se bem, não é enfadonha. Por isso, claro que gostei de ler este livro. No entanto… a história ficou aquém do que esperava.
Achei logo interessante a estrutura escolhida — em vez de capítulos de narração alternada (o mais comum quando há vários narradores), o livro divide-se em cinco partes, em que cada parte se foca numa das mulheres, com exceção de Chiamaka, que narra a primeira e a quinta parte. Com uma estrutura destas, conseguimos ter uma melhor noção de quem são estas personagens principais e o que nos querem contar, ou, pelo menos, foi o que eu achei que teríamos.
Olhei para ele e a gravidade afrouxou e esvaiu-se. A atração que senti foi imediata, consumidora, elementar, cada parte granular de mim precipitando-se subitamente para ele. Nesse momento, houve algo que, mais do que perder-se, se rendeu.
Em primeiro lugar, temos três personagens de meios claramente privilegiados. Até Chiamaka, que tem algumas dificuldades na carreira de escritora, não tem grandes preocupações porque os pais podem pagar-lhe uma casa para ela escrever. Serem ricas não me teria incomodado se não tivesse sentido que, mais uma vez, foi a personagem pobre, Kadiatou, a passar pelo pior.
Em segundo lugar, um ponto de contacto entre partes do livro é a questão dos sonhos. Pela minha interpretação, todas tiveram de perceber que não iam realizar os sonhos que tinham — pelo menos não da forma que imaginavam —, mas seria mesmo preciso fazê-lo como se a pessoa pobre não pudesse ter sonhos, a mulher bem sucedida fosse uma aparente insensível e os homens fossem praticamente aquilo que as movia — embora sejam também a fontade de todos os problemas pelos quais passam?
Normalmente, gosto muito da escrita e das narrativas de Chimamanda, mas, neste caso, a narrativa não conseguiu corresponder ao que esperava. Senti falta de algo mais, de personagens mais apelativas, em que a multidimensionalidades se notasse realmente, em vez de parecerem personagens totalmente superficiais. Normalmente, sou a favor de personagens imperfeitas, em que os defeitos existem e não são apagados. Mas, neste caso, senti que os defeitos não as tornavam mais reais — tornavam-nas mais irritantes. Aquilo que eu achava que me iam mostrar ficou perdido nas intenções, com uma grande dificuldade em conseguir ultrapassar aquilo que me pareciam ser, em me importar com o que lhes acontecia, em torcer por elas. E quando torci pela Kadiatou achei que ela foi injustiçada.
Portanto, resumindo isto tudo sem me meter por caminhos demasiado explicativos, que contem toda a história, foi uma leitura insossa, que não faz vir nenhum mal ao mundo, mas que, sinceramente, também não acrescentou grande coisa.
Título original: Dream Count
Título em português: Inventário de Sonhos
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Ano: 2025
Editora: Dom Quixote
Lido entre 10 e 16 de fevereiro de 2026


ainda sem comentários