Lembro-me de, na cadeira de Tópicos em Comparatismo, abordarmos as narrativas de exílio e O país dos outros surgir como um exemplo destas narrativas. Lembro-me de que pensava constantemente na minha experiência de viver em Lisboa quando falávamos destes diferentes tipos de exílio. Não sabia que a Leïla Slimani iria viver por lá, numa forma de exílio diferente, mas, ainda assim, semelhante. Comprei O país dos outros na Feira do Livro do Porto de 2023, já depois daquelas aulas, dias antes de me tornar mestre, mas ainda muito influenciada por todo um mundo literário que me tinha sido mostrado como essencial.
O país dos outros passa-se numa época habitual das minhas leituras — o pós-Segunda Guerra Mundial —, mas num cenário diferente: Marrocos. É para este país que Mathilde e Amine se mudam no final da guerra. Mathilde é francesca, nascida na Alsácia, e Amine é marroquino, combatente no exército francês durante a Guerra. Mais do que tentar construir as bases para a família que estão a criar, Mathilde percebe que a ida para Marrocos tem muito mais que se lhe diga.
Num país mais conservador, com uma religião diferente e com uma relação complicada entre colonizador e colonizado, a ideia de este ser o país dos outros vai buscar muito à colonização e à luta pela independência de Marrocos, tema acompanhado ao longo do livro, mas também à maneira como Mathilde encara a vida em Marrocos — e como ela própria é encarada numa terra que não é a dela.
O país dos outros é uma saga familiar, o primeiro de uma trilogia, inspirada na própria família da autora franco-marroquina, e a questão familiar atraiu-me logo. À medida que vamos conhecendo cada membro da família e percebendo as suas intenções e crenças, tece-se uma narrativa mais complexa para a história familiar, mas também para todo o panorama marroquino entre o fim da Segunda Guerra e a independência do país.
Como o primeiro livro da Leïla que li que um livro sobre escrita, O perfume das flores à noite, vim para este romance como se nunca tivesse lido a autora. Tinha curiosidade em lê-la em ficção, mas não tinha como saber se ia encontrar a mesma voz que tinha lido antes. Curiosamente, senti-me logo familiarizada com a escrita da autora, embora tenha achado este livro muito mais denso.
Ao estrear-me finalmente na ficção dela, começo já a colocar os livros seguintes desta saga na lista de compras futuras. Agora, estou investida. Gostei da escrita da autora e de como me fui sentindo mais próxima e mais distante em vários momentos da história. Não é um daqueles livros pelos quais podemos passar à pressa; a história pede-nos que nos demoremos, que prestemos atenção, que tentemos compreender para lá daquilo que nos é dito. Não será no imediato, mas hei de continuar a história desta família.
Título original: Le pays des autres
Título em português: O país dos outros
Autora: Leïla Slimani
Ano: 2020 (PT: 2021)
Editora: Alfaguara
Lido entre 27 de maio e 4 de junho de 2026


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