Nos dos últimos dias de Feira do Livro do Porto, já com todos os livros da lista comprados e alguma folga no orçamento, decidi que ia comprar poesia. Queria comprar outro livro da Filipa Leal e demorei-me pelas prateleiras do stand da Poetria sem encontrar aquilo que procurava. Estava quase a desistir quando, numa das prateleiras mais altas, vejo uma lombada que me interessava. Mal peguei no livro percebi que estava estragado. A capa e quase metade do livro estavam dobradas, com a capa marcada para todo o sempre. Fiquei um pouco irritada porque alguém claramente não tinha sido cuidadoso e aquele livro estava estragado por causa da falta de atenção de outra pessoa e porque não havia mais exemplares e eu não ia poder comprar o livro que queria. Ainda comecei a arranjar espaço para o devolver à prateleira de onde o tinha tirado, mas depois parei. Olhei para a capa do livro, uma dobra terrível a meio, e pensei: tenho de levar mesmo este livro. Acho que a Filipa Leal encontraria poesia no facto de eu trazer um livro estragado para casa.
Foi com este livro que decidi que, em 2026, avançada mesmo com o desafio de ler um livro de poesia por mês e, por isso, só fazia sentido que esta fosse a escolha de janeiro. O resto da lista haveria de se compor, entre títulos guardados e alguma aleatoriedade, mas o início tinha de ser com Fósforos e Metal sobre Imitação de Ser Humano.
Há algo na poesia da Filipa que me faz esquecer todos os pré-conceitos poéticos adquiridos na escola. Não me faz duvidar de ser poesia, como aconteceu com a poesia visual, mas faz-me sentir mais próxima da poesia, dando-me a certeza de que a poesia pode e deve chegar às pessoas mesmo que o faça para nos falar dos assuntos mais simples e mundanos que a vida nos dá. Em certo ponto, faz-me lembrar as crónicas ou os textos diarísticos.
Fósforos e Metal aborda a chegada dos 40, quase como se fosse uma orientação para a entrada nessa nova década, pronta para pensar naquilo que a espera, mas também para mergulhar nas memórias — da infância àquele amor que terminou.
Entre amores e desamores, memórias e ânsias, os poemas parecem contar-nos pequenas histórias, envolvendo-nos em vidas que sentimos que podiam ser a nossa. Acho os poemas da Filipa muito próximos, muito visuais, como se fosse possível ver cada verso acontecer à nossa frente. Gosto especialmente de notar esta capacidade de contar histórias e este sentido de humor na poesia. Somos muitas vezes levados a crer que a poesia só se faz de certa forma, com certas palavras, sobre certos temas. E se essa ideia de poesia é, muitas vezes, o que nos afasta dela, é esta poesia mais livre — de preconceitos, acima de tudo — que revela a sua beleza na totalidade, porque não há nada mais bonito do que a elasticidade dos géneros, a transversalidade da arte e as palavras comuns que só os poetas parecem saber usar para nos lembrar do quanto vivemos rodeados de poesia, mesmo numa ida ao El Corte Inglés em crianças.
Título original: Fósforos e Metal sobre Imitação de Ser Humano
Autora: Filipa Leal
Ano: 2019
Editora: Assírio & Alvim
Lido a 1 de janeiro de 2026


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