falar de ansiedade a rir

diário de sofia

Há uns anos, tive um ataque de pânico nas urgências do centro de saúde. Hoje, sempre que conto esta história, rio, brinco com a situação, relativizo tudo o que aconteceu. Naquele dia achei que ia morrer. Por que motivo estou a escrever isto agora? Aqui há dias estava a contar esta história no trabalho, a rir, claro, e um colega disse «E eu a pensar que era o único ansioso da equipa». Fiquei a pensar na ansiedade, claro, mas também neste mecanismo de falar de ansiedade a rir, com uma certa leveza.

No início de janeiro, tive uma crise de ansiedade. Há muitos meses que não tinha uma — há tantos que não me lembro de quando foi a última — e no dia a seguir estava a contar o que tinha acontecido como se fosse mais uma ida ao supermercado ali ao lado. Sei que, para quem ouve, deve ser estranho.

Houve uma altura em que ninguém falava de ansiedade e, por isso, não sabíamos que havia outras pessoas a sentir o mesmo que nós sentíamos. Depois passou a haver muita gente a falar de ansiedade e, por isso, não sabíamos se tinham realmente um transtorno de ansiedade ou se estavam só a pegar num substantivo que achavam ter aquele significado. Mas se falamos com leveza e tranquilidade e até com algumas piadas sobre algo menos bom da nossa vida então até que ponto estamos realmente mal com isso?

Nem sempre é assim, mas, para mim, pensar que tive um ataque de pânico e achei que ia morrer porque a enfermeira da triagem me fez pensar que ia morrer por uma reação perfeitamente normalmente a uma crise de rinite e sinusite tem uma certa graça. Ainda mais se pensar que não queria morrer porque tinha bilhetes para o Alive na semana seguinte. Isto tem graça, sim. As tragédias não terão sempre piada numa primeira instância, mas quando alguém ri de algo trágico parece que se torna um bocadinho mais suportável.

Dei por mim a pensar num excerto de uma conversa entre o Ricardo Araújo Pereira e o Guilherme Fonseca no Má Ideia, o podcast do Guilherme. Primeiro vi o excerto nas redes sociais, depois acabei por ir procurar o contexto completo. Neste excerto, os dois humoristas falam sobre aquilo que consideram uma nova tendência da comédia que é o sentimentalismo, que é como quem diz: os humoristas quase puxarem ao sentimento em certo ponto do espetáculo. Percebo aquilo de que falam — tenho, aliás, ido a alguns espetáculos assim. O Sombra, da Bumba na Fofinha, é um deles. Há uma frase de fecho de bit que não é propriamente para rir. Aliás, na primeira versão do Sombra chorei que nem um bebé, lágrimas a escorrer pela cara. Não percebi foi o ponto ao qual queriam chegar com a observação que fazem — até porque o Guilherme tem um espetáculo que é, ele próprio, uma forma diferente de pensar o luto.

Percebo que sim, tem havido mais espaço para uma certa vulnerabilidade na comédia, um ponto de partida negativo para algo que depois há de fazer rir, ou até um corte nas gargalhadas para um ponto mais sério. Acho que isso nos apanha desprevenidos. Vamos ali para rir e de repente existe a possibilidade de lágrimas que não vêm do excesso de riso. O RAP e o Guilherme diziam que isto é quase batota porque é mais fácil fazer chorar do que fazer rir, mas não tenho assim tanta certeza.

Não é nada fácil fazer rir sobre coisas que dão para chorar, não é nada fácil fazer chorar quando o ambiente é de rir e não é nada fácil ter a destreza de pegar em algo triste, assumir a sua tristeza, e conseguir dar-lhe espaço no meio da comédia. O riso desarma-nos, cria uma certa vulnerabilidade também, mas rimos mais facilmente porque nos distanciamos daquilo que nos faz rir. Aliás, o Henri Bergson, n’O Riso, diz que:

Numa sociedade de inteligências puras provavelmente deixaríamos de chorar, mas talvez continuássemos a rir; ao passo que um mundo de almas invariavelmente sensíveis, afinadas em uníssono pela vida, onde todo e qualquer acontecimento se prolongasse numa ressonância sentimental, não conheceria nem compreenderia o riso.

Ora, o choro aproxima, surge num quase confronto. E vivemos numa sociedade em que tendemos a afastar-nos mais do que a aproximar-nos, em que o choro é algo que, a existir, tem de existir em privado, sem ninguém ver ou saber, porque o choro nos torna automaticamente fracos e o riso nos dá força. Acho que é precisamente por isto que dou por mim a falar de ansiedade a rir. Distancio-me do momento, de mim, e pego num momento em que me senti fraca para lhe dar força. Ora, para um humorista acho que o contraste que existe na viagem entre piadas > momento sentimental > piadas é ainda mais curioso, porque transforma a comédia em algo em que, realmente, não há limites, em que não precisamos de ser puristas e só rir, mas onde também percebemos que aquela pessoa que nos consegue fazer rir também faz o mesmo exercício de sanidade de ir buscar força para rir ao momento mais triste que lhe acontecer.

É por isso que me encontras mais facilmente a rir sobre um ataque de pânico aos 23 anos, em que achei que ia morrer, do que me vais encontrar a chorar sobre a dificuldade de lidar com aquilo que a nossa mente nos diz. Mas se eu estiver a contar-te o meu ataque de pânico com o maior gozo possível e der uns toques de sentimentalismo não estou a fazê-lo porque é mais fácil chegar aos outros pelo lado chorão. É mesmo porque não quero distanciar-me tanto de algo sério ao ponto de não saber lidar com as montanhas-russas em que andamos ao longo da vida.

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