1.Achava que, depois daqueles primeiros meses de universidade, seria sempre fácil deixar um lugar para ir para outro. Depois percebi que isso nunca iria acontecer enquanto tivesse cães. São aqueles olhinhos, tristes e inquisitivos, a pedir um espacinho extra na mala. E é assim, a olhar para a Lady, que muitas vezes choro… e fico a chorar durante uns quantos quilómetros, como se não estivesse a ir para casa. São aqueles olhinhos…
2. Estou desejosa de tirar o aparelho, já não tenho criatividade para escolher cores de elásticos, estou farta de ter sempre feridas e aftas na língua, estou cansada deste processo. Mas vou ter saudades da minha ortodontista. Vou mesmo.
3. É um pouco perturbador ver o caos num centro comercial no primeiro sábado do ano, mas também é um pouco fascinante. Todos sabemos que vai estar um caos, mas vamos mesmo assim, como se não houvesse outros lugares para estar. Como seriam as vidas destas pessoas se vivessem em zonas sem centros comerciais? Pelo sim, pelo não, não volto a ir ao cinema nos primeiros dias do ano. Fica aqui registado.
4. Ganhar o hábito de fazer caminhadas foi tão bom, perdê-lo foi tão mau. Mas é inverno, esta zona é muito movimentada, é aproveitar os domingos de sol para torcer por ainda haver hipótese de, um dia, voltar a ser hábito comum e não só dos domingos de sol.
5. Este álbum do Miguel Araújo (Por Fora Ninguém Diria) foi mesmo feito para dias como o de hoje: de frio, mas com tanto sol que a luz da sala é bonita e mesmo as tarefas mais chatas parecem mais fáceis de concretizar.
6. Talvez uma das melhores coisas de trabalhar em casa seja sentir que dá tempo para aproveitar algo no nosso dia para lá da rodinha do rato. Não temos todos as mesmas 24 horas, mas assim parece que ganhámos um bocadinho de tempo.
7. Fico a olhar para algumas entidades públicas e, por momentos, juro que percebo o slogan da campanha do Montenegro. Fica mesmo difícil trabalhar assim.
8. Hoje tive vontade de mandar uma mensagem à psicóloga. Não para pedir uma consulta, mas para lhe perguntar se ficava orgulhosa por eu ter sabido lidar com o ataque de ansiedade de hoje, por me lembrar de estratégias, por já não me lembrar de quando tinha sido a última vez, por ter dito primeiro não vais deixar que isto te afete assim, isto não vale a pena em vez de me culpar. Não mandei mensagem, mas acho que ela ficava orgulhosa. (Os psicólogos podem ficar orgulhosos dos pacientes?)
9. Saio novamente de um espetáculo de stand up com uma certa inveja. Há quem ache que um escritor consegue escrever todos os géneros, mas não é bem assim. Queria saber escrever um solo de stand up, mas escrever stand upé uma ciência que desconheço. (Mas gostei muito do Sombra 2.0)
10. Às vezes acho que as amizades se tornam melhores quando começamos a perder conta ao tempo que passou desde que aquelas pessoas entraram na nossa vida.
11. A Taylor devia ser mais capitalista: merecíamos ter visto The Eras Tour: The Final Show nos cinemas. (Só vi hoje o concerto todo de seguida, sem interrupções)
12. Aparentemente, ou estava em melhor condição física ou romantizei os treinos do Paulo Teixeira durante o confinamento. Ou então estou só mortíssima porque passei umas semanas sem treinar e hoje custou mais. É capaz de ser isto.
13. Estou a olhar para este guia e estou in my feelings more than Drake porque não me apetece fazê-lo porque me deixa triste passar dias inteiros a ler sobre doentes oncológicos, mas quero fazer o melhor trabalho possível porque sei que é necessário, é importante e faz tanto (ou mais?) pelos doentes oncológicos como me deixaram fazer numa instituição de apoio ao doente.
14. Quero fazê-lo há anos, mas só no ano passado senti que podia pagar o nível 1 sem que isso fosse um peso difícil de gerir na minha conta bancária. E agora aqui estou eu, pronta a começar o curso de Revisão de Textos. Não sei se vou realmente fazer trabalhos de revisão, mas que, pelo menos, me ajude a trabalhar a escrita de outra forma, em todas as suas vertentes que agora me ocupam.
15. Ainda hei de perceber como é que nos dias em que entro às 8h30 e saio às 17h30 consigo facilmente chegar às 18h sem sentir que o tempo se arrasta, mas nos dias em que entro às 9h e saio às 18h parece que a tarde se arrasta e as 18h nunca mais chegam.
16. «Podia ser o início de um daqueles policiais que andei a ler há uns tempos» — não sei onde vou usar isto, mas tenho de apontar. É que nunca vi o Porto com tanto nevoeiro. Lembrou-me Trancoso quando vem aquele nevoeiro cerrado durante dias e já sabemos que vem aí sincelo. Mas na marginal não havia nevoeiro baixo. E ele não tinha qualquer ideia de que, naquele momento, estava a mais — estava a ter um momento com a minha cidade.
17. Desafio toda a gente a contrariar-me, mas as sessões de escrita que são para a conversa são as melhores porque dão para tudo. Força, tentem contraria esta tese.
18. Senti-me mesmo feliz a sair de casa para ir votar, como se nunca o tivesse feito. É que o dia estava bonito e, pela primeira vez, votei como eleitora desta freguesia portuense. E lá fui eu votar feliz, quase esquecida dos receios dos resultados.
19. Há dias em que nos maquilhamos ou vestimos para os outros, mas claramente é por mim que continuo a ter o ritual matinal de maquilhagem. E sabe tão bem dar cor a estes dias cinzentos.
20. Liguei à minha mãe por videochamada para ver a Lady. Há dias em que é só isso que é preciso.
21. Às vezes, nos dias 21, fico a pensar naquela história. Umas vezes fico triste, outras fico chateada. Hoje — como noutras vezes — dei por mim a pensar que a única forma de a salvar não é ir lutando por ela: é fazer uma história melhor, outra história. Porque se entrar com uma história, então haverá esperança para esta também.
22. Podia explicar porque é que já gosto de chamar pessoas para vir à minha casa, mas a ideia é isto serem notas curtas e ia precisar de várias páginas. Mas já gosto e hoje chamei o Diogo para vir até cá. Ah, como os conceitos de casa mudam tudo!
23. Está um frio do caraças, mas o arrepio ao ouvir a Gisela João cantar Inquietação ao vivo foi de outra coisa. Cá dentro inquietação, inquietação, há sempre qualquer coisa que está para acontecer…
24. A minha mãe mandou fotos e vídeos da Lady a brincar na neve e já sei que este momento —vivido por ecrãs — estará nos meus momentos favoritos do ano.
25. Têm aparecido, na aplicação Swipe Wipe, fotos que reconheço de imediato como tendo sido tiradas por uma DSLR. Olho para elas e tenho saudades de fotografar assim, mas as prioridades financeiras têm sido outras e não sei quando é que voltará a ser possível comprar uma… (o que me lembra de que tenho de ver se acabo o rolo da Minolta)
26. Sei que já não tenho idade para me deitar tarde em noites pré-dia de trabalho quando, às quatro da tarde, estou com tanto sono que duvido da capacidade de conseguir terminar o dia de trabalho (mas terminei).
27. A julgar pelo quanto gosto do dia de receber salário para organizar o orçamento mensal, não sei se nasci para ser finfluencer ou se tenho só um nível grave de ansiedade financeira. Ambos? A segunda parte não deixa dúvidas, mas para a primeira…
28. Não, Portugal não está preparado para nada — nem para o calor extremo, os incêndios demolidores e os locais desertificados, nem para o frio extremo, as chuvas torrenciais, os fenómenos atmosféricos que fazem parecer que o vento está na Fórmula 1.
29. Vi um vídeo da Rute Cardoso numa atividade do Luna eSports no São João e voltei a questionar-me de quanta força é feita aquela mulher.
30. Se fosse totalmente honesta teria de admitir que, às vezes, acho a antecipação mais importante do que o momento de chegada. É que adoro as chegadas, mas ficam demasiado próximas das partidas. (Parece que estou a falar de um aeroporto, não é?)
31. Porque é que janeiro parece tão longo? Como é que cabe tanta aleatoriedade em 31 dias? Como é que 31 dias parecem 90? Janeiro sempre pareceu assim tão longo?


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