- Como é que me tornei uma pessoa que gosta de fazer marmitas? Eu não gostava, odiava ter de tirar tempo do fim-de-semana para preparar as refeições da semana, odiava ao domingo ter de tentar adivinhar o que me ia apetecer comer na sexta-feira, odiava sentir que cozinhar assim me fazia perder tempo. E agora sinto que me faz ganhar tempo, gosto desta hora e meia, duas horas, que passo na cozinha, só eu e os meus podcasts, a preparar as refeições da semana, a saber que vai haver dias em que vou acordar motivada pelo almoço, a sentir que estou a ganhar tempo. Não sei quando isto mudou, mas talvez tenha sido quando fazer as marmitas passou a ser uma atividade feita em conjunto com a Inês Meneses e o Júlio Machado Vaz… eles é que não sabem.
- Na escola, os professores diziam sempre que eu era muito calada. Aliás, há quem, na família da minha mãe, ainda ache que eu sou calada. Acho que nunca iriam acreditar que me perco em conversas durante horas.
- Não sei se isto de treinar de manhã vai funcionar muito tempo, mas o facto de eu me sentir motivada a tentar já diz qualquer coisa… Normalmente, iria preferir treinar ao fim do dia, mas sinto que, ao treinar ao fim do dia, quebro de tal forma a energia que já não me apetece aproveitar o que resta do dia para outras coisas e queria mesmo tentar ter algum tempo de escrita ao fim do dia. Assim posso ter um intervalo para esticar as pernas, desligar mentalmente do trabalho e, sem ter uma quebra tão acentuada, sentar-me novamente a escrever. Vamos ver como corre…
- A sensação que tenho é a de que os melhores livros do Gabo são os que me apaixonam e aqueles em que noto mais fragilidades são aqueles em que melhor me apercebo da genialidade que vivia na mente deste homem. A Hora Má não será dos melhores livros do García Márquez, mas as subtilezas do livro marcaram-me de uma forma completamente diferente.
- Sei que temos de reconhecer primeiro aquilo em que somos privilegiados, sabermos qual é o nosso lugar antes de nos pormos nos sapatos dos outros. E sim, tenho muita sorte em não precisar de sair de casa para ir trabalhar no meio destas tempestades todas. Mas, foda-se, o efeito mental de não ter nem um bocadinho de abertura para poder apanhar ar porque está constantemente a chover…
- O milímetro final, a meia décima, os últimos cem metros. Por que motivo parece mais difícil chegar a algo quando falta mesmo muito pouco do que quando estamos no início, quando ainda temos um percurso grande pela frente? É quando temos de esquecer o cansaço, fingir que estamos tão frescos como estávamos no início. Mas cá estamos, no sprint final para tirar o aparelho e aproximar-me do fim do plano de tratamento que comecei há três anos e que me custou muito dinheiro. Mas parece custar mais agora.
- Não é solitário passar um dia sozinha em casa, sem compromissos, só livros e séries. Sabe bem, faz descansar a mente mais do que qualquer outra parte do corpo. De repente, dá para desligar por completo e escolher muito bem o quê ou quem pode interromper o nosso silêncio. E tenho de admitir que gosto particularmente de, de vez em quando, ler um livro inteiro num dia.
- Ao longo dos anos, após cada eleição nacional, ganhei uma tradição diferente: ouvir Grândola, Vila Morena enquanto vejo projeções. Começou porque os resultados começaram a mostrar fragilidades democráticas e o único conforto era torcer pelos valores de liberdade. Não podia ser uma bolha, tinham de existir algures. Normalmente, tenho ouvido Zeca com um grande peso mental. Mas hoje… hoje ouço-o com uma leveza política desejada. Haverá muita luta nos próximos anos, é certo, mas hoje venceu a democracia, venceu quem pode proteger a democracia. O povo é quem mais ordena…
- O Halftime Show do Super Bowl tornou-se maior do que o Super Bowl e, por mim, tudo ótimo. No entanto, depois de Kendrick e de Bad Bunny, não sei como é que vão conseguir superior o impacto cultural em 2027. Não que tenha sido perfeito (precisava de mais Ricky Martin e menos Lady Gaga), mas a nível de história e de representação é impossível negar que o Halftime Show se tornou, nos últimos anos, algo muito maior do que era.
- Nível de teimosia: não sei se terei pensamentos aleatórios para partilhar todos os dias e ninguém me obriga a que estas notas sejam realmente diárias, mas agora decidi que é para ver até quando consigo escrever notas diárias e sinto-me o Barney Stinson a criar desafios para si mesmo sem ninguém o desafiar realmente a alguma coisa.
- Uma das melhores conquistas mentais de crescer é, sem dúvida, aceitar que há dias em que só precisamos de estar recolhidos e não forçar interações ou intenções. Podemos fazer muitos fretes na vida, mas, nos dias em que sabemos que a nossa energia física e a nossa energia mental estão nos mínimos, é preciso saber dizer não e parar, não forçar e respeitar o que nos vai na cabeça. Mesmo que isso signifique ter um dia menos produtivo ou recusar um convite para sair depois de jantar.
- Admito que me fascina um pouco ver as tradições que cada pessoa tem em datas festivas: o jantar de natal sempre no mesmo sítio, o dia de aniversário que inclui sempre os mesmos pilares… diz muito sobre nós, sobre o lugar de onde viemos. E vimos todos de lugares que, afinal, são mesmo tão diferentes uns dos outros.
- Que sorte esperar 13 anos por um novo álbum de Dealema e ele chegar numa sexta-feira treze de fevereiro para mostrar que é mesmo bonito ter hip-hop como a nossa banda sonora.
- Se é por pela Lady que me custa a despedida, também é pela Lady que a chegada é tão feliz. Ninguém fica tão feliz por me ver como ela fica, desconfiada da chegada, a seguir-me para todo o lado enquanto me vê descarregar o carro. Não há mesmo nada como ter um melhor amigo canino.
- Percebo perfeitamente o argumento de que os nossos pais são, acima de tudo, nossos pais e não nossos amigos, no entanto acho mesmo que eu e a minha mãe temos uma excelente amizade, para lá de tudo o resto que nos une. Somos muitas vezes mãe e filha, mas noutras tantas somos amigas e acho isso bonito.
- Trabalhar remotamente com a companhia da Lady faz-me lembrar os dias longos em que escrevi ensaios no mestrado com ela a tentar usurpar o lugar do computador. É um exercício de produtividade e concentração diferente. Mas, sendo muito honesta, prefiro parar todas as vezes necessárias para lhe fazer festas do que ser a rainha da produtividade quando estou com ela.
- O verde começa a dividir protagonismo com o preto. A vegetação começa a regressar depois de ter sido completamente arrasada no verão, mas agora regressa para metros e metros seguidos de restos de incêndio. Já não estão lá as árvores de antes. Mas o verde está a regressar, como sempre soubemos que aconteceria. É uma das poucas certezas que podemos ter: tudo o que ardeu voltará a ter verde… até arder novamente.
- Estava aqui a olhar para a minha espada-de-são-jorge, que já cresceu tanto desde que me foi oferecida, e realmente vejo-me na minha casa, com plantinhas. Não muitas, que não tenciono viver num jardim botânico, mas, de todas as modas de decoração que vieram nos últimos anos, a ideia de plantas a decorar espaços da casa é uma das modas mais iluminadas e bonitas que por aí veio.
- Realmente, quantas vezes nos arrependemos de ir a um evento? Sinto que nos arrependemos sempre mais vezes de não ir do que de ir. Pelo menos, neste caso, não houve arrependimentos em ir ouvir o Afonso Reis Cabral na Livraria Lello.
- Às vezes parece-me estranho viver neste mundo em que as minhas amigas vêm de pontos tão distantes e são tão diferentes entre si, mas todas são necessárias para completar o puzzle.
- When Os Quatro e Meia said «só quero sentir o sol» I really felt that. Que é como quem diz: um sábado de sol, que bom!
- Digo-o sempre e não acho que me vá cansar de o fazer: o Parque da Cidade é mesmo o meu lugar preferido do Porto. Que não restem dúvidas.
- Não preciso da precisão histórica, porque não estou a ver como se fosse um documentário, mas Love Story: John F. Kennedy Jr. and Carolyn Bessette tem uma banda sonora tão, mas tão boa. Transporta automaticamente para os anos 90 — o que, no meu caso, significa que transporta para o imaginário dos anos 90 que a ficção me deu, porque claramente ser de ’94 não me permite ter grande imaginário dos anos 90.
- Aprende-se muito a ouvir escritores falar sobre os seus livros, principalmente porque quando isso acontece os livros já não são bem deles. Parece que sabem muito sobre o livro de que falam, mas como se fosse algum amigo que conheceram há muito tempo e de quem já se afastaram.
- Não precisa de fazer sentido, mas sempre que o vejo penso em forma de poema.
- Curioso como há músicas que nos fazem sentir automaticamente em casa de tão familiares que são, por terem crescido connosco. Também é curioso como músicas que cresceram connosco, desde a infância, de repente ganham novos imaginários.
- Fevereiro parece sempre aquela música que acaba demasiado cedo e que nos faz questionar qual foi a pressa de terminar.
- Acho que nunca irei perder o fascínio de caminhar pelas ruas do Porto quando as magnólias começam a dar flor. E, se perder, será porque não estou a caminhar pelas ruas certas.


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