Tenho noção de que passo mais tempo a pensar em conceitos abstratos de casa e outros temas relacionados do que a maior parte das pessoas que conheço. Dou por mim a tentar perceber qual é o conceito de casa que têm, o que procuram numa casa, o que lhes dá a sensação de casa, que relação tinham com a casa enquanto cresciam e que relação têm agora.
Passo tanto tempo a pensar em conceitos abstratos de casa que só me dei conta de que estava a escrever sobre casa neste texto a assinalar o 11.º aniversário deste blog quando os parágrafos se começaram a juntar a outros que já tinha escrito antes sobre outra casa, esta não num sentido figurado.
O conceito de casa, aquele conceito em que casa deixa de ser unicamente a definição de uma construção destinada a habitação e passa a englobar o sentimento de pertença, de conforto e de aconchego, foi algo com o qual não cresci. Ter uma casa era algo que eu achava que não estava ao alcance de todos, mesmo estando rodeada de pessoas para quem a casa era algo adquirido. Para mim era algo instável, provisório, desconfortável, exclusivo.
Já era adulta quando deixei de imaginar como seria a minha vida se vivesse em cada e qualquer casa onde entrasse. Era um hábito que tinha desde pequena, não sei bem desde que idade, mas sempre que ia a uma casa nova imaginava como seria se eu vivesse ali, que vida teria se aquela fosse a nossa casa. Sinceramente, não sei se já deixei completamente de o fazer, mas agora faço-o em momentos específicos e conscientes, não porque demorei todos aqueles anos a descobrir o que era uma pessoas ter uma casa — no sentido literal e, principalmente, no sentido figurado.
Por quantas casas já passei…
Ao longo dos anos, passei por várias casas, várias habitações. Questionava sempre se algum dia iria sentir totalmente que estava em casa. Quase o senti naquele apartamento que me acolheu durante a maior parte da licenciatura e fui ganhando essa sensação depois de a minha mãe comprar casa, mas já de uma forma diferente, porque aos 25 já não planeava ter a minha vida ali. Podia ser um bocado casa. Um espaço provisório, o meu sótão. Aquele espaço de que a Madalena Sá Fernandes fala no livro com o mesmo nome: um espaço para curar feridas entre um fim e um (inevitável) novo começo. Para mim era isto a casa da minha mãe.
Mais do que toda a análise psicológica que poderia ser feita à minha procura da sensação de casa (análise já desnecessária, porque já foi feita em terapia), tornou-se um assunto complicado para esta economia: ter casa. Desde que fui para Lisboa em 2013, sempre que vivi fora de casa da minha mãe, dividi casa. Chegámos a ser sete pessoas numa casa. Não, não estou a exagerar. Foi nos últimos meses em que vivi em Lisboa e a renda de 300€ com despesas incluídas, nas Olaias, parecia-me absurdamente cara, apesar de ser das mais baratas que encontrei. Mal imaginava que, poucos anos depois, aquele valor iria ser considerado uma pechincha… ou sinónimo de falta de janela ou de cama num quarto partilhado.
Para quem nunca teve bem presente o conceito de casa, estar em espaços provisórios, que não são realmente nossos e que não conseguimos tomar por nossos é só mais um dia normal. Por isso, ir partilhando casa era algo assumido como normal. Por isso e porque, claro, era a única forma possível de suportar financeiramente a vida noutra cidade. E foi-se fazendo, claro, mas não sem muitas peripécias, desde as baratas da residência universitária de Chelas (nunca tinha visto baratas até então) à colega de casa que ouvia o hino comunista em altos berros (nunca ouvi tanta música russa desde que as t.A.T.u. estavam na moda).
À medida que a crise imobiliária se foi intensificando, comecei a lembrar-me constantemente das séries que me formaram, com adultos a entrarem pelos 30 dentro com colegas de casa. Como é que podemos dizer que nos venderam outra realidade quando Friends e How I Met Your Mother nos mostravam adultos com colegas de casa? Não era uma realidade muito diferente, mas durante quanto tempo conseguimos ir dividindo casa assim? Também fui pensando muito sobre a dificuldade das relações destes tempos em que nem quem não vive com os pais tem privacidade porque vive com cinco desconhecidos. Mas pronto, cá se vai vivendo, não é? Bem… mais ou menos.
A crise imobiliária também trouxe outra questão: não é suposto sentirmos que a nossa qualidade de vida melhora quando o salário sobe e deixa de estar preso no ordenado mínimo? Então como é que via o salário aumentar e a possibilidade de habitação diminuir? Fui-me questionando sobre até que ponto conseguiria equilibrar a necessidade de um espaço e de privacidade com o mercado imobiliário atual. E nem vamos falar dos apoios ridículos que o Governo gosta de fingir que vão ajudar os jovens, caso contrário este texto ganha o dobro ou triplo do tamanho.
Obviamente, nunca cresci obcecada com a ideia de compra de casa. I mean, eu nem sabia o que era ter casa, quanto mais comprá-la. Entrar no mercado de trabalho também não me deu esse objetivo no imediato. Lembro-me de estar no meu primeiro trabalho de Marketing a ganhar o ordenado mínimo, ter menos de 200€ disponíveis para viver depois de pagar o passe e a renda e pensar como caraças é que há pessoas a comprar casa? Ok, admito, hoje em dia ainda me questiono o mesmo. Tal como na altura, a maior parte das vezes a resposta prende-se com fatores socioeconómicos que me ultrapassam, menina nascida e criada na classe baixa.

Quando deixei os arredores e vim viver realmente para o Porto consegui um progresso diferente: só ia dividir casa com uma pessoa. Parecia mais gerível para alguém a entrar nos 30 e sem paciência para debates caseiros. Mas, claro, há sempre uma altura em que não conseguimos escapar ao desconforto de dividir casa na vida adulta. Porque a outra pessoa faz mais barulho do que nós, porque só conseguimos dormir com tampões para não acordarmos ao mesmo tempo do que a outra pessoa, porque a vontade de estar na ronha no sofá nos passa se estiver outra pessoa em casa, porque a decoração nos chateia, porque simplesmente precisamos de um espaço que nos dê conforto e tranquilidade.
Foi assim que voltei às horas passadas em sites de arrendamento, com várias versões de orçamentos mensais toleráveis e uma ideia bem definida — e já se sabe que quando meto uma coisa na cabeça é porque já a estudei tão bem que já não vou mudar de ideias. Isto tudo com uma ansiedade crescente vinda de estar a partilhar casa.
Procurar casa em 2026 foi ainda mais difícil do que tinha sido em qualquer outro ano. Quando se diz que o mercado de arrendamento está num estado deplorável não é exagero. Como é que alguém chama casa aos cubículos que arrenda? Não, querido, a tua garagem sem janela não é uma casa, desculpa lá qualquer coisinha. Talvez a possas ter sentido como casa em algum momento, não sei, mas é desumano querer que alguém viva num espaço sem qualquer luz natural.
Portanto lá passei longos meses a perder alguma sanidade e esperança na humanidade enquanto procurava uma casa para arrendar. Ah, mas e a garantia pública, não podias comprar? Não, não vamos falar sobre estes apoios do Governo, a sério, não vamos. Os meus requisitos obrigatórios? Cozinha mobilada, janelas de vidro duplo, bons acessos a outras partes da cidade, a renda só podia ser, no máximo, 50% do meu ordenado. Vi cada coisa que parecia saída de um filme de terror que nem sei explicar. Também vi vários esquemas de burlas, senhorios que não respondiam a mensagens, apartamentos que podiam ter funcionado se tivessem cozinha mobilada, apartamentos demasiado caros para aquilo que eram…
No ano passado assisti a uma dinâmica de grupo de utentes do centro de dia da instituição em que trabalhava. A ideia era que, a cada afirmação, cada elemento se deslocasse para junto de um de dois cartazes: luxo ou direito. Depois, essa escolha seria justificada. É interessante porque conseguimos saber muito sobre uma pessoa com base nesta escolha aparentemente simples. Das muitas afirmações sobre os quais se falou (medicação, tratamentos, transportes, trabalho, habitação), ficou-me a justificação de uma mulher: devia ser um direito, mas é um luxo. Infelizmente, não é só o ter uma casa com condições dignas que devia ser um direito, mas é um luxo.
Qual é a tua definição de casa?
Acho que a definição individual de casa vai mudando ao longo da vida. Um bocadinho como a casa dos Buendía, que parecia ir-se adaptando sempre que era preciso, também aquilo de que precisamos para nos sentirmos em casa vai mudando. Alguns livros, alguns CDs, o lugar onde a maquilhagem está arrumada à minha maneira, as velas escolhidas por mim.
Mas quantas vezes não sentimos que casa foi um abraço? Um beijo? Um livro ao qual já voltámos tantas vezes que as páginas já denunciam? Uma série à qual já voltámos tantas vezes que sabemos diálogos de cor? Ou um blog que criámos aos 20 para reformar o blog que tínhamos criado aos 14?
Comprei suculentas, tapetes e fiz a casa ganhar cores para lá do branco e cinzento. Deixei de precisar de racionar o que tenho no congelador e de dormir de tampões. Não há pôr-do-sol em que não fique uns bons minutos a admirar o privilégio que é ter este luxo. A lista de coisas que quero comprar vive da paciência de quem sabe que uma casa se vai criando aos poucos. Um bocadinho como vamos tornando um blog casa. Aliás… tornamos um blog uma casa dos Buendía — aquele espaço que parece que vai aumentando e diminuindo de acordo com as necessidades de quem o cria e no qual não sabemos bem quanto tempo vamos viver.
Às vezes lá vem a pergunta sobre como é que ainda sustento este lugar, se não planeio mudar-me por completo para o condomínio onde agora habitam todos os ex-bloggers e os que nunca o chegaram a ser, se ainda acho que faz sentido existirem casas como esta. Mas eu mudei-me para aqui há muitos anos e faço obras e manutenções regulares. Acho que agora vivo numa casa mais minimalista, para a qual trago menos coisas, mas que ainda me permite aproveitar a vista.
Talvez seja por isso que, ao pensar sobre como queria abordar 11 anos deste projeto, fui sempre parar ao facto de ainda não ter partilhado aqui que há várias semanas passei a viver sozinha num 4.º andar sem elevador. As minhas pernas ainda não se habituaram a tantos degraus, mas lá chegarão. Para já, só sei que, tanto numa casa como na outra, eventualmente tudo aquilo de que preciso cá irá chegar.
Livros referenciados neste texto:
Sótão, de Madalena Sá Fernandes (2026, Companhia das Letras)
Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez (2009, Dom Quixote)


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