A minha parte preferida das brincadeiras de criança era criar a história das personagens. Passava horas a criar a história perfeita para cada brincadeira porque aquela Barbie não podia simplesmente estar na casa dela com o cão e o gato e receber a outra amiga Barbie sem qualquer motivo. Tinha de haver uma história. Tinha sempre de haver uma história. Acho que foi por isso que nunca fui boa a escrever diários. Escrevia quando me parecia acontecer algo como o que era retratado nos diários literários que conhecia — tinha de haver uma boa história para escrever. Um tanto performativo, eu sei, mas unia-se a consciência de escrever o que se sentia valer a pena e a necessidade de criar histórias e podia ter-se adivinhado que haveria um dia em que elas finalmente se iriam encontrar para lá das composições obrigatórias dos testes de Língua Portuguesa. Isso aconteceu em maio de 2007. A primeira história com início, meio e fim. O momento aleatório e meio sonhador em que uma miúda de 12 anos decide que vai mesmo ser escritora. Só porque sim.
Por estes dias apareceu-me no telemóvel uma fotografia que mostra a data exata em que escrevi aquela história. Não escrevo há um mês e meio, por isso até acho que a fotografia é um bom lembrete de que parei de escrever por umas semanas e já está na hora de me obrigar a parar para escrever, mas também é um bom lembrete de que ando há dezanove anos a tentar escrever as histórias que sinto que valem a pena e de que a escrita já não está só nas histórias por isso não é preciso preocupar-me demasiado com este interregno. A vida acontece, o cansaço acumula-se e as mudanças de rotina implicam sempre mudanças de hábitos. No entanto não foi nestes lembretes em que pensei primeiro ao ver aquela data em letras grandes e desenhadas. Não, a primeira coisa em que pensei foi na conversa, já repetida, de uns tempos antes: porque é que tanto mudou na forma como escrevemos na internet e até quando iremos de facto escrever na internet?
Quando a escrita perde lugar nos meus dias durante uns tempos volto sempre a esta pergunta. Já não o faço por duvidar de que voltarei a escrever, mas porque sinto que, coletivamente, andamos todos a repensar a nossa arte e o nosso processo criativo. Sinto isto porque, ultimamente, me tenho cruzado com muitas entrevistas e reflexões de artistas que admiro, nas mais variadas áreas, em que surge um tema comum: o motivo pelo qual fazem o que fazem, mesmo quando vêm dúvidas, mesmo quando as coisas não correm bem. Um desses exemplos foi o Harry Styles, na entrevista que o Zane Lowe lhe fez a propósito do último álbum, Kiss All The Time. Disco, Occasionally. A certo ponto o Harry diz que quis ter um tempo de pausa entre a última tour e este álbum porque precisava de perceber se continuava a fazer música porque era aquilo que sempre tinha feito ou se ainda havia paixão por aquela arte. No meu caso, a resposta tem estado sempre na segunda parte. Acho que o dia em que pender para a ideia de que só estou a fazer isto porque sempre fiz será também o dia em que fecho tudo e decido ir procurar outras paixões.
No entanto sejamos honestos: escrever é cada vez mais difícil, principalmente quando comparado ao que era no início. Quando comecei a explorar o mundo dos blogues, um ano depois daquela primeira história, já estava a tentar criar o meu espaço com aquilo que, na adolescência, me fazia sentido fazer parte de um blogue. Logo eu, que sempre fora péssima a manter diários. Mas depois vieram as mortes anunciadas. Tenho de admitir que, desde aí, sempre me deu um gozo tremendo ver estas mortes anunciadas de espaços relacionados com escrita: os blogues iam morrer, os livros iam morrer, a imprensa escrita ia morrer. Não sei como é que não deixou de se ensinar a escrever. Com tanto anúncio sempre nos restou (a quem escreve, quero dizer) arranjar novas formas de apresentar a escrita, fosse por tema, por estrutura, por formato. Afinal, há milhares de anos que se contam histórias. Só mudou a forma de o fazer.
As histórias interessaram-me primeiro do ponto de vista literário, pela maneira como as podia escrever. Mas, antes de outra variante qualquer, as histórias chegaram-nos da forma mais direta: primeiro partilhadas oralmente, depois com recurso a ícones e, por fim, com palavras. Depois, claro, outras áreas apoderaram-se das histórias e perceberam que eram um meio poderoso para outros fins. Veio o storytelling e mais uma série de pequenas regras que faziam com que o ato de contar histórias tivesse mais nuances e não se limitasse a uma história no seu sentido mais puro. A internet trouxe-nos uma nova forma de olhar para as histórias e de encontrar pessoas para nos contarem essas histórias e voltámos a ter pessoas a contar-nos histórias oralmente, com imagens e, claro, muitas histórias em palavras. E é isto que tem tornado a escrita mais difícil. Também acho que é o que tem tornado a escrita mais interessante.
Enquanto passava estas semanas sem escrever lá me ia ocorrendo um ou outro tema que ando a prometer há demasiado tempo (maioritariamente a mim, mas por vezes também a amigas), tentava organizar pensamentos para decidir sobre o que escreveria. Tanta coisa a acontecer e tão pouca ginástica mental para as escrever. No meio do caos mental dei por mim constantemente a pensar em algo que escrevi àquilo que me parece uma vida. Há uns anos decidi que havia uma história que queria contar online, mas tinha algum receio de o fazer. Desde início ficou definido que iria optar pela auto-ficção para me editar melhor. Sabia que, naquele caso, interessava-me tanto a história como a catarse, por isso não me ia importar muito com estruturas ou regras. Só precisava mesmo de falar do que me ia na cabeça; o resto era secundário. Foi assim que nasceu o Desengatados.
Ao longo daqueles meses, aquelas histórias faziam-me sentido e geraram uma boa conversa com quem as lia. No entanto fiquei sempre a vê-las como catarse, sem lhes dar oportunidade de serem muito mais do que isso. Isto até há umas semanas, quando recebi um e-mail a convidar-me para ser palestrante num evento. Primeiro achei que era engano. Não era fácil enganarem-se com isto, eu sei, mas não me vejo assim tão abalada psicologicamente para ir falar numas Jornadas de Psicologia. Depois explicaram-me que tinham lido o Desengatados e achavam que, por isso e por ter claramente anos de experiência em conteúdos digitais, eu teria alguma coisa a dizer. Sinceramente, de todas as coisas aleatórias que já me aconteceram por escrever na internet, esta chega facilmente ao pódio.
Ao longo destas semanas dei por mim constantemente a pensar no Desengatados por nervosismo, sim, mas também porque talvez tenha sido uma das últimas coisas profundamente pessoais que escrevi na internet. Ainda haveria lugar para algo assim hoje? Não tenho a resposta. Aquilo que sei é que nos momentos mais solitários procurei sempre refúgio em palavras. Sentimo-nos sempre menos sozinhos quando encontramos alguém que sentiu e viveu o que nós sentimos e vivemos. E as palavras sempre foram uma boa companhia, mesmo que para contarem histórias sobre desilusões amorosas e dating apps. E é certo que estamos sempre a tentar descobrir novas formas de contar as histórias que queremos contar, principalmente nesta época em que tudo já parece ter sido visto, mas pelo menos a próxima história pode ser tão banal como a vida aconteceu durante uns tempos e agora vou ali falar sobre isso.
Tenho pensado muito sobre escrita, mas não da forma em que dava por mim a pensar noutras alturas. Dou por mim a pensar no que quero escrever a seguir, questiono-me o que de interessante terei para dizer — na internet e num evento de Psicologia —, no impacto que não sabemos que temos nos outros e, acima de tudo, naquilo que direi quando finalmente me voltar a sentar a escrever depois de semanas. Conto aquilo que se tem passado na minha vida nos últimos dois ou três meses? Nah, a minha vida não é assim tão interessante para escrever sobre ela… ou será que só não estou a contar a história da forma certa?
Posto isto, no dia 2 de junho, pelas 11h30, vou estar nas III Jornadas de Psicologia da Unidade Local de Saúde do Tâmega e Sousa (ULSTS), no Museu Municipal de Penafiel. O painel — As 50 sombras do algoritmo: o scroll da vida adulta — servirá para falarmos sobre as relações interpessoais no mundo atual. O convite surgiu por causa do Desengatados, por isso obrigada!


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