Ao longo da história da ficção, os sótãos foram sempre um espaço retratado de forma muito peculiar. O lugar das coisas que queremos esquecer, o lugar das tralhas que ainda não queremos deitar fora, o lugar onde habitam mais teias de aranha por metro quadrado, o lugar das coisas que não queremos que os outros vejam. Nos thrillers há sempre um sótão onde acontecem coisas macabras, onde vivem as mulheres loucas. É parte de uma casa, mas nunca parece ter capacidade de se tornar um lar.
No seu terceiro livro, Madalena Sá Fernandes deixa as metáforas náuticas e atraca num sótão. O sótão é o lugar para onde vai viver depois do fim de uma relação, um lugar de transição, é certo, mas também é um lugar que a faz pensar nas representações literárias deste espaço. Com uma narrativa fragmentada, Sótão acompanha os dias da Madalena desde que chega ao sótão, com vários regressos a momentos específicos do passado.
Gosto muito da escrita da Madalena e tenho vindo a gostar cada vez mais de livros com este tipo de estrutura mais dividida, que altera o presente com momentos-chave do passado. Neste caso em específico, gostei particularmente da ligação subtil entre Sótão e Leme e das pequenas reflexões e histórias sobre a casa como um espaço nem sempre de segurança. O Leme toca muito essa ideia de que a casa pode ser um espaço de medo, onde as piores coisas podem acontecer. No Sótão a ideia de casa é diferente, primeiro parece quase uma necessidade (porque era preciso X…), mas depois é também um lugar de solidão, de algum recolhimento para lamber feridas e de reconstrução.
Esta forma de pensar o lugar casa interessa-me particularmente e, por isso, acho que não surpreendo ninguém ao dizer que sublinhei várias passagens e dei por mim e gatafunhar alguns pensamentos aleatórios durante a leitura. Como ponto menos positivo, senti que a escrita fragmentada por vezes tinha cortes muito vincados, algo de que não gosto tanto. Prefiro quando os fragmentos parecem surgir tão naturalmente que não questionamos a mudança de assunto ou a revelação sem continuidade. Ainda assim, no geral é um livro bastante bom, que coloca a Madalena como um dos bons exemplos deste tipo de literatura em Portugal.
Título original: Sótão
Autora: Madalena Sá Fernandes
Ano: 2026
Editora: Companhia das Letras
Lido entre 23 e 25 de maio de 2026


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