as leituras do 1.º trimestre

O meu lugar preferido do mundo para estar é entre palavras.

Bem… entre palavras e entre o Douro e a Circunvalação.
Gosto de batons, de cães e de incluir referências a Taylor Swift em qualquer conversa. 

Sabe mais sobre mim aqui.

opiniões literárias

Há um debate interno que tenho com regularidade: qual é o papel que quero que os livros tenham neste blog. Já concluí que não quero escrever individualmente sobre cada livro que leio e que as chamadas review-relâmpago funcionam bem para ir partilhando, mensalmente, aquilo que vou lendo, mas depois vêm meses complicados como os últimos e lá se vai o apanhado mensal de leituras.

Além disso, como transferi essa rubrica para o Substack e tenho andado a repensar (novamente, eu sei) o tipo de conteúdo que quero por lá, queria mesmo ter esta reunião de livros aqui também. Como pensei muito e não concluí grande coisa, achei por bem começar por trazer aqui um apanhado do que li nos primeiros três meses do ano.

Para facilitar a estrutura desta publicação, vou começar por fazer uma atualização do ponto de situação dos objetivos literários deste ano e, depois, vou dividir as leituras por mês — no início vou listar os livros lidos e, abaixo, falo sobre cada um. Assim, consegues ver facilmente o que foi lido em cada mês e podes escolher quais te interessa ler. Em alguns casos, vou deixar links para as publicações individuais.

Objetivos de 2026: tracking do trimestre

No início do ano partilhei alguns objetivos literários para este ano, por isso acho uma boa ideia vermos como está a evolução na concretização destes objetivos ao fim de 3 meses:

  • Ter 150€ de orçamento para a Feira do Livro do Porto — comecei o ano com 43€ no meu fundo de Feira do Livro e cheguei ao fim de março com 93€.
  • Reduzir em 60% a TBR digital: 27 dos 45 ebooks que tenho por ler — não reduzi muito os ebooks que tenho por ler neste 1.º trimestre do ano: de 45 passei para 42.
  • Reduzir em 60% a TBR física: 50 dos 85 livros físicos que tenho por ler — dos 85 livros físicos do início de ano passei para 71, o que é uma evolução positiva.

Leituras de janeiro

imagem com fotografias dos livros de janeiro, por ordem de leitura. em cima: Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humano, de Filipa Leal; Recomeçar, de Maria Dueñas; Factfulness, de Hans Rosling; The Vanishing Half, de Brit Bennett.
Em baixo: Porto Desconhecido & Insólito, de Germano Silva; Adrenalina, de Filipa Leal; Martyr!, de Kaveh Akbar; O Acontecimento, de Annie Ernaux.
  • Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humano, de Filipa Leal
  • Recomeçar, de Maria Dueñas
  • Factfulness, de Hans Rosling
  • The Vanishing Half, de Brit Bennett
  • Porto Desconhecido & Insólito, de Germano Silva
  • Adrenalina, de Filipa Leal
  • Martyr!, de Kaveh Akbar
  • O Acontecimento, de Annie Ernaux

Fósforos e Metal sobre Imitação de Ser Humano, de Filipa Leal

Fósforos e Metal aborda a chegada dos 40, quase como se fosse uma orientação para a entrada nessa nova década, pronta para pensar naquilo que a espera, mas também para mergulhar nas memórias — da infância àquele amor que terminou.

Entre amores e desamores, memórias e ânsias, os poemas parecem contar-nos pequenas histórias, envolvendo-nos em vidas que sentimos que podiam ser a nossa. Acho os poemas da Filipa muito próximos, muito visuais, como se fosse possível ver cada verso acontecer à nossa frente. Gosto especialmente de notar esta capacidade de contar histórias e este sentido de humor na poesia.

Podes ler aqui a review completa.

Recomeçar, de Maria Dueñas

Em Recomeçar temos como personagem principal Blanca, uma professora universitária que, após um divórcio complicado, sente necessidade de deixar o conforto da sua casa e a vida na universidade em que dá aulas em Espanha e concorrer a uma bolsa na universidade de Santa Cecília, na Califórnia. Esta bolsa pretende que a professora organize o espólio deixado por Andrés Fontana, um professor espanhol expatriado, misterioso e condenado ao esquecimento. Através deste trabalho, Bianca conhece ainda Daniel Carter, aprendiz de Fontana que passou algum tempo em Espanha.

Embora as vidas de Andrés e Daniel estejam obviamente ligadas e as de Blanca e Daniel se liguem em Santa Cecília, é muito interessante perceber que, antes de Daniel servir como ponto de ligação na vida dos dois professores, já existem algumas semelhanças entre Blanca e Fontana.

Se a narrativa não é assim tão elaborada, o certo é que a escrita da Maria Dueñas é envolvente e nos permite continuar interessados naquilo que ela nos quer contar.

Podes ler aqui a review completa.

Factfulness, de Hans Rosling

Factfulness está dividido em dez capítulos, cada um focado em provar que estamos errados em relação ao mundo e que as coisas estão melhor do que pensamos. Que melhor premissa para começar um novo ano do que o mundo estar melhor do que achamos? Ao longo de cada capítulo, o foco está em ideias generalizadas que temos e termina sempre com uma regra que nos ajuda a perceber se estamos a olhar para os factos da forma certa.

Sabia que ia gostar deste livro, porque é o livro típico para quem é curioso e gosta de ver factos interessantes sobre o mundo, sem ser sobrecarregado com linguagem técnica desnecessariamente. Gostei mesmo muito do livro e acho que é uma ótima leitura, dá para ler com calma e certamente dará que pensar.

Podes ler aqui a review completa.

The Vanishing Half, de Brit Bennett

The Vanishing Half conta-nos a história de duas irmãs gémeas, Desiree e Stella, que, aos 16 anos, fogem da pequena cidade que as viu crescer. Desiree acaba por viver a vida enquanto mulher negra, mas Stella opta por criar uma vida em que é uma mulher branca e ninguém sabe quais as suas origens. A história acompanha as duas irmãs entre as décadas de 1950/60 e a década de 1990, quando a identidade e a vida familiar já não lhes diz respeito só a elas, mas também às filhas.

The Vanishing Half é um livro muito interessante na forma como aborda identidade, família e sentimento de pertença, que vai além da família, mas toca também na forma como cada um de nós se perceciona. Gostei muito da escrita da autora e, mesmo que, em certos momentos, tenha sentido que o livro se arrastou, acho que é um bom livro, que vale a pena ler, porque certamente dará que pensar — e até que debater com outros leitores.

Porto Desconhecido & Insólito, de Germano Silva

Este livro parte de uma curiosidade do autor sobre que histórias se esconderiam nas traseiras dos edifícios da cidade, escondidas de quem passa pelas ruas do Porto. É assim que conhecemos o claustro bonito do edifício do Comando Territorial da PSP, cemitérios escondidos, nascentes e até bonitas histórias de amor.

Sinto que estes livros do Germano Silva são cartas de amor ao Porto, dedicadas aos portuenses — os que aqui nasceram e os que foram adotados pela cidade —, alimentadas pela paixão dos tantos que amam esta cidade. Gosto de ir abrindo o Google Maps enquanto leio, certa de que há lugares que desconheço e outros que já me são tão familiares que ignoro as suas origens. É daqueles livros para nos apaixonarmos mais pelo Porto — porque é possível apaixonarmo-nos mais por ele, sim.

Adrenalina, de Filipa Leal

Acabei de ler Adrenalina e a sensação que ficou foi a de arrependimento — a maior parte dos livros da Filipa Leal já não está em circulação e resta-me agora um conto. Devia ter racionado, guardado numa redoma que só podia abrir em caso de emergência.

Publicado em 2024, Adrenalina assinala os vinte anos da publicação do primeiro livro da Filipa, algo que surge no livro como reflexão sobre a maturidade, a vontade de não ter pressa (e continuar a tê-la), os espelhos que nos mostram outras versões da nossa vida.

Ainda com Fósforos e Metal presente na minha memória, notei em Adrenalina uma evolução temática muito natural, em que se nota esta maturidade — de escrita e não só — que nos faz olhar para as vidas passadas com outros olhos, que por vezes nos parecem olhos de um estranho, e desejar não ter pressa, mesmo sabendo que é um objetivo facilmente falível.

Estou fã da Filipa Leal e Adrenalina deu-me todas as certezas de que juntei mais uma autora à lista das minhas preferidas.

Martyr!, de Kaveh Akbar

Martyr! acompanha Cyrus Shams, um jovem que está sóbrio há pouco tempo e que se debate com várias questões de identidade — quem é enquanto artista, enquanto homem iraniano que passou a vida nos Estados Unidos, enquanto alguém que, pelo seu luto, quer saber como dar significado à vida e à morte. Esta vontade de dar significado a algo leva-o a tentar criar significado através da arte que cria.

Martyr! reflete sobre identidade, arte, o que dá significado à vida, luto, mas também relações interpessoais. Não me surpreendeu, mas gostei muito do paralelismo entre 2017 e 1987, com tanto que mudou e tão pouco, principalmente se pensarmos no Irão, e com o ponto comum das narrativas em que duas pessoas tentam encontrar-se no mundo, através da arte, lembrando-nos sempre de que, na identidade, partilham o facto de serem queer.

Não foi uma leitura linear para mim, mas gostei de conhecer estas personagens, principalmente a mente criativa de Cyrus. É uma boa leitura para quem quer histórias tristinhas.

O Acontecimento, de Annie Ernaux

Então com 23 anos, uma jovem universitária com um futuro promissor descobre que está grávida. Desde logo, sabe que não pode ser mãe naquele momento, sabe que não quer ter aquele bebé. Os seus planos de vida não incluem ter um bebé com aquela idade e está decidida a abortar. Só há um problema: em 1963, o aborto era ilegal em França. Como sabemos, ser ilegal não significa que não seja feito; significa, isso sim, que é feito com muitos mais riscos e menos segurança. Ao escrever sobre este acontecimento quarenta anos depois, as memórias parecem tão presentes como se tivesse vivido aqueles momentos há poucos dias, mas trazem a carga de reflexão que só o tempo permite.

A leitura de O Acontecimento foi angustiante. Todo o processo de aborto é, também, muito complicado de ler, claro, mas foi no pós-aborto que a angústia passou a uma certa irritação, quando de repente já surgiam opções mais perto e mais baratas e que podiam não ter tido tantos problemas.

Parece-me surreal pensar que, em pleno século XXI, continuamos a discutir a escolha individual sobre o corpo da mulher como se o corpo da mulher fosse algo público, sobre o qual qualquer pessoa tem juridisção. Ah, como um livro de 1963 traz reflexões tão atuais!

Podes ler aqui o texto que escrevi baseado no livro (fui um pouco além da review).

Leituras de fevereiro

imagem com fotografias dos livros lidos em fevereiro. em cima: Exposição. Poemas e Prosímetros, de Duarte Scott; Ao Fechar a Porta, de B. A. Paris; A Hora Má, de Gabriel García Márquez. em baixo: Começa Já, de Pedro Andersson; Inventário de Sonhos, de Chimamanda Ngozi Adichie; Ponha o Seu Dinheiro a Trabalhar para Si, de Bárbara Barroso; A História de Roma, de Joana Bértholo.
  • Exposição. Poemas e Prosímetros, de Duarte Scott
  • Ao Fechar a Porta, de B. A. Paris
  • A Hora Má, de Gabriel García Márquez
  • Começa Já, de Pedro Andersson
  • Inventário de Sonhos, de Chimamanda Ngozi Adichie
  • Ponha o Seu Dinheiro a Trabalhar para Si, de Bárbara Barroso
  • A História de Roma, de Joana Bértholo

Exposição. Poemas e Prosímetros, de Duarte Scott

Exposição é um livro que vive para abordar o seu título e o seu oposto — aquilo que é exposto e aquilo que é escondido —, muito focado em relações humanas, as amorosas, claro, mas também as familiares. Entre os poemas e os prosímetros, estes textos que vivem entre a prosa e a poesia, Exposição alimenta-se de memórias. O próprio Duarte Scott reconheceque muitos poemas do livro partem de experiências pessoais, mas defende que o interesse destes poemas não é autobiográfico.

Neste livro em específico, sinto que a proximidade foi maior com os prosímetros, mas custou-me entender a linha condutora que ligava todos os textos e poemas e foi uma experiência de leitura que não me deu grandes certezas em relação à opinião que tenho do autor — de uns gostei muito, de outros nem por isso. Acho que terei de ler o segundo livro para tirar teimas.

Podes ler aqui a review completa.

Ao Fechar a Porta, de B.A. Paris

Ao Fechar a Porta traz o casal perfeito: Jack e Grace. Um advogado que nunca perde casos, uma dona de casa irrepreensível. O casamento parece perfeito, mas Grace é um mistério. Não tem telemóvel, nunca atende o telefone, não sai à rua sozinha, é demasiado magra… o que não sabem é que a perfeição é algo que só existe quando outras pessoas estão presentes.

Gostei muito do livro. A escrita da B. A. Paris consegue criar uma boa narrativa, com personagens bem construídas, num livro que se quer sufocante. Devorei-o numa tarde, sem pressas, mas também sem capacidade para parar a leitura durante muito tempo. Achei-o um thriller bastante bom e vou querer ler mais livros da autora, sem dúvida.

A Hora Má, de Gabriel García Márquez

Achava que me esperava um livro denso, difícil de ler, pelo menos era isso que me tinham dito. Sei que a escrita do Gabo acaba por exigir algum tempo, alguma disposição, mas, neste caso, encontrei uma novela bem diferente daquilo que esperava. A Hora Má, publicado originalmente em 1962, começa no dia em que César Montero mata Pastor. O motivo? Um pasquim pregado à porta de casa que indica que Pastor é o amante da mulher. Este é o primeiro de muitos pasquins que aquela pela localidade colombiana verá, até que se decide que os pasquins podem ameaçar a paz que se vive no pós-guerra civil.

A Hora Má tem algumas fragilidades. Acho que precisava de ser um pouco mais longo para que isso permitisse que as personagens tivessem mais espaço para crescer, algo que iria ajudar a história a funcionar melhor. No entanto foi por notar fragilidades que fiquei ainda mais fascinada.

Podes ler aqui a review completa.

Começa Já, de Pedro Andersson

Tenho andado numa mini-maratona de livros de finanças pessoas e, para já, fechei o capítulo Pedro Andersson com este livro de 2024, destinado a um público jovem, entre os 16 e os 30 anos. Em Começa Já, a premissa é dar as bases de finanças pessoais aos jovens, desde os primeiros tempos de gestão financeira.

Acho que é um livro bastante completo para o objetivo que tem e serve o propósito que tantas vezes ouvimos ser uma falha: dá as bases necessárias aos jovens (e diria que não só aos jovens) para que possam aprender a gerir o dinheiro que têm.

Infelizmente, acho que será muito mais representativo para quem realmente consiga viver sempre em casa dos pais ao longo da faculdade e nos primeiros anos de trabalho. É uma falha comum nas dicas de literacia financeira: não contemplam tanto as pessoas que gerem um orçamento só para si, sem fazerem parte de um casal ou sem terem a segurança de viver em casa dos pais, e têm ainda o peso de as rendas estarem cada vez mais caras, por isso acaba por ser quase utópico pensar que vai ser possível destinar apenas x % para estes gastos com casa. Fora esta minha embirração transversal aos conteúdos de literacia financeira que vejo, diria que é um bom livro-resumo para quem precisa de alguma orientação a aprender estas bases financeiras.

Inventário de Sonhos, de Chimamanda Ngozi Adichie

Inventário de Sonhos é narrado por quatro mulheres. Primeiro conhecemos Chiamaka, que é uma escritora nigeriana e vive nos Estados Unidos. Depois vem a sua melhor amiga, Zikora, uma advogada de sucesso que dá por si numa encruzilhada. Temos ainda Omelogor, prima de Chiamaka, ousada e importante no mundo financeiro nigeriano, e Kadiatou, empregada doméstica de Chiamaka, que foi da Guiné para os Estados Unidos, onde está a tentar dar a melhor vida possível à filha.

Achei logo interessante a estrutura escolhida — em vez de capítulos de narração alternada (o mais comum quando há vários narradores), o livro divide-se em cinco partes, em que cada parte se foca numa das mulheres, com exceção de Chiamaka, que narra a primeira e a quinta parte. Normalmente, gosto muito da escrita e das narrativas de Chimamanda, mas, neste caso, a narrativa não conseguiu corresponder ao que esperava. Senti falta de algo mais, de personagens mais apelativas, em que a multidimensionalidades se notasse realmente, em vez de parecerem personagens totalmente superficiais.

Podes ler aqui a review completa.

Ponha o Seu Dinheiro a Trabalhar para Si, de Bárbara Barroso

Não ouço o Money Bar com muita regularidade, acabando por me limitar aos episódios em que o tema me interessa mais, mas reconheço que a Bárbara Barroso é das pessoas com mais conhecimentos financeiros em Portugal. Não adoro quando ela partilha conteúdos em modo coach motivacional, mas sei que, a nível de literacia, se consegue aprender muito com ela.

Como não acho que o conteúdo que a Bárbara faz seja o mais adequado para iniciantes — embora ela também fale de alguns conceitos básicos — queria esperar algum tempo até avançar para este livro, porque esperava uma grande componente focada em investimento e em quem já tem fundo de emergência e quer agora poupar para fazer o dinheiro crescer.

O livro foca, sim, essas questões sobre investimento, mas também não esquece as questões base que permitem uma certa estabilidade sem a qual não podemos partir para caminhos mais desafiantes. A parte que me interessou menos foi a que tocou no tal modo coach, a ligar a literacia financeira a um lado meio desenvolvimento pessoal, mas acho que pode resultar com algumas pessoas. No entanto deu para aprender mais algumas coisas. Estou longe de virar finfluencer, mas cada vez mais gosto de aprofundar conhecimentos sobre finanças pessoais.

A História de Roma, de Joana Bértholo

A História de Roma tem uma coisa curiosa: a sinopse não lhe faz qualquer justiça. A sinopse dá a entender que é um romance banal, de duas pessoas que tinham uma relação, a relação não resultou e a história é escrita de forma a explicar a história da filha que eles não tiveram. Mas o livro vai muito além disso. É aquela história de amor, mas também são as questões da vida: a maternidade, a sociedade, a família.

É um livro muito complexo, com muitas camadas, e é o retrato de uma geração também. Uma geração que quer conhecer o mundo, ver tudo, aprender tudo e são tão ultra-capacitados, estudam tanto e depois vivem todas estas crises económicas e bolhas imobiliárias. Gostei da cadência da história, de irmos a vários lugares e de percebermos como ela anda meio mundo atrás de uma pessoa que é um palhaço (literalmente e não só) apenas para perceber que, se calhar, nada daquilo foi o que ela achou que tinha sido.

Ao reler (tinha lido em 2023, em ebook, e no ano passado comprei em formato físico), tive a certeza de que é um dos meus favoritos da vida. Não me canso de o recomendar!

Podes ler aqui a review escrita em 2023.

Leituras de março

imagem com fotografias das leituras de março. em cima: De Onde Vem Este Cansaço?, de Nelson Nunes; Alegria para o fim do mundo, de Andreia C. Faria; A Escrita como uma Faca, de Annie Ernaux. em baixo: Augusta B. — ou jovens instruídas 80 anos depois, de Joana Bértholo; A Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han; A Bastarda de Istambul, de Elif Shafak.
  • De Onde Vem Este Cansaço?, de Nelson Nunes
  • Alegria para o fim do mundo, de Andreia C. Faria
  • A Escrita como uma Faca, de Annie Ernaux
  • Augusta B. — ou jovens instruídas 80 anos depois, de Joana Bértholo
  • A Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han
  • A Bastarda de Istambul, de Elif Shafak

De onde vem este cansaço?, de Nelson Nunes

Ao longo de dez capítulos, são-nos apresentados vários exemplos de relações com o trabalho e com o ócio. Alguns são, até, de pessoas cujo trabalho vou acompanhando, como o Fernando Alvim e o David Fonseca, mas, independente da profissão que tenham, o ponto que liga todas as partilhas prende-se com a relação entre trabalho, ócio, stress e, claro, o cansaço.

Curiosamente, foi uma leitura que assumi lenta — é o tipo de livro em que cada capítulo para que pensar e, por isso, acaba por ser uma leitura de muitas linhas sublinhadas, muita meditação e muita comparação. Gostei muito do livro porque não tentou dar uma única resposta à origem do cansaço e explorou vidas completamente diferentes. Talvez lhe faltasse, no entanto, explorar o cansaço noutras zonas do país. Ir mesmo a profissões mais banais no Minho ou numa região longe dos grandes centros urbanos.

Este livro foi o ponto de partida de uma edição longa da newsletter.

Alegria para o fim do mundo, de Andreia C. Faria

Sabia que este dia podia chegar, mas não esperava que pudesse chegar no terceiro mês do ano: questionei a minha ideia de ler um livro de poesia diferente por mês durante este ano.

Escolhi Alegria para o fim do mundo com base em excelentes opiniões que fui vendo por aí. A Andreia C. Faria é uma das chamadas novas vozes da poesia contemporânea portuguesa e, por isso, faz-me todo o sentido incluí-la nesta lista de autores a explorar. Neste livro, os temas andam muito à volta do que é ser mulher e de várias vivências femininas, com poemas um tanto viscerais, com alguma ironia à mistura.

Aquilo que tenho percebido com a poesia é que, tal como noutros géneros, a poesia não é universal e há poetas que podem não ser para nós. Foi o que senti ao ler Alegria para o fim do mundo: que estava a ler algo que não era para mim, que não ia conseguir ligar-me àqueles versos. E claro que me frustrou sentir isso, porque normalmente a poesia não é um género que eu arraste e, neste caso, ia arrastando a leitura e sentia que estava quase a obrigar-me a tentar tirar significados de poemas que não estavam a interessar-me.

Não há uma narrativa, não podemos sequer julgar as construções frásicas porque a poesia tem regras próprias e cada poeta fará as suas. Por isso se calhar este é o livro perfeito para muitos, não é um livro que eu possa dizer que é terrível: é só um livro que não é para mim.

Podes ler aqui a review completa.

A Escrita como uma Faca, de Annie Ernaux

A leitura de A escrita como uma faca não estava nos planos, mas acabei influenciada pelo clube de leitura da Raquel Dias da Silva e acabei por voltar a Annie Ernaux bem mais cedo do que esperava. Este livro é uma conversa escrita entre a Annie Ernaux e o escritor Frédéric-Yves Jeannet, que, durante um ano, enviou perguntas e algumas ideias à escrita francesa sobre a sua obra e a sua forma de trabalhar.

Gosto muito de tentar perceber a mente dos escritores e a forma como encaram a escrita. No caso da Annie Ernaux, como tinha lido um livro dela recentemente, sinto que fui para este livro em busca de pequenas pistas sobre as estratégias que ela teria usado para escrever aquilo que eu já tinha lido.

Mais do que uma troca de perguntas e respostas, este livro promove uma reflexão interessante sobre o papel da literatura — para quem escreve e para quem lê —, principalmente o papel político. Foi uma leitura tranquila, fácil de ir lendo ao sabor dos dias, e que cimentou a minha vontade de enveredar, num futuro próximo, pela obra da Annie Ernaux.

Augusta B. — ou jovens instruídas 80 anos depois, de Joana Bértholo

Em fevereiro fui assistir a uma conversa com a Joana Bértholo na Biblioteca Municipal de Matosinhos e acabei por comprar dois livros que já tinha lido anteriormente em ebook. Um desses livros foi o Augusta B., que aproveitei para reler em março.

Uma novela que surgiu do festival literário Correntes d’escrita, que ocorre na Póvoa de Varzim, Augusta B. traz Augusta, que tem 22 anos e desconhece por completo a biografia de Agustina Bessa-Luís, por isso não sabe que ambas têm em comum o facto de terem chegado à Póvoa de Varzim quando tinham 6 anos. Mas Augusta tem uma amiga leitora, Raquel, que um dia embarca consigo nesta aventura de tentar encontrar o amor após um desgosto. É assim que o caminho se volta a cruzar com Agustina. Em 1944, aos 22 anos, Agustina colocou um anúncio no jornal O Primeiro de Janeiro em que dizia: «Jovem Instruída desej. corresp. c/ pessoa intelig. e culta. Resp. Admin. N.º 61». Este pequeno anúncio foi lido por um rapaz em Coimbra, que respondeu com um desenho. Ela respondeu. Trocaram cartas. Casaram e ficaram juntos para o resto da vida. História bonita, não é? É esta a história que vai marcar Augusta e ligá-la à autora portuguesa.

Gosto muito deste livrinho, acho que representa as inquietações da nova geração, que tem uma facilidade tremenda em criar relações digitais, mas que pode estar as relações analógicas. Além disso, é uma história pequenina, leve, muito fácil de ler numa tarde soalheira.

Podes ler aqui a review da primeira leitura, em 2024.

A Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han

Tinha lido algumas páginas do ensaio do filósofo Byung-Chul Han há uns anos, mas quando estava a escrever a tal edição da newsletter inspirada pelo livro do Nelson Nunes lembrei-me de que havia algo que queria referir que talvez beneficiasse de ler o ensaio completo.

Não acho que seja um ensaio particularmente bem articulado e acho que, para a sociedade atual, aborda apenas uma parte do cansaço que nos invadiu. No entanto também é um trabalho interessante e importante para lembrarmos onde está a génese do que nos cansa, de onde vem esta ideia de super-produtores que tem de estar sempre a fazer alguma coisa e não se permitem parar.

A Bastarda de Istambul, de Elif Shafak

Terminamos com a escolha de março do desafio de autoras e tenho de admitir que esta curiosa para voltar a ler Elif Shafak, principalmente porque esta premissa me pareceu promissora. Por um lado, temos Asya Kazanci, jovem turca que vive em Istambul com a família, constituída só por mulheres, visto que os homens da família estão amaldiçoados e morrem com 40 e poucos anos. Na família de Asya temos Zeliha, a mãe, que é tatuadora, Banu, que é vidente, e Feride, sempre à espera do pior. Por outro lado, temos Armanoush, uma jovem arménio-americana, prima de Asya, que decide ir visitar a família à Turquia.

A premissa era ótima, sim, mas o desenvolvimento deixou a desejar. Para mim, a ligação das histórias das famílias e a abordagem à culpa do passado e às dores de um conflito entre países, culturas e famílias preparou terreno para algo que, depois, não foi concretizado. É bom ler a Elif Shafak, acho que os livros dela conseguem envolver-nos facilmente, mas, neste caso, acho mesmo que a história merecia melhor.


Ufa, isto foi longo, eu sei! Destes três meses, tenho de destacar O Acontecimento e a releitura de A História de Roma. Acho que foi um início de ano com leituras muito mornas, mas até consegui reduzir a quantidade de livros físicos por ler e isso deu aqui um impulso interessante para o resto do ano. Fica já um spoiler: abril e maio descambou. Mas sobre isso falamos mais à frente.

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