Uma das coisas de que gostei logo nesta casa foi o facto de estar mobilada em tons neutros. Não havia cortinas com cores berrantes, móveis com cores estranhas… branco e cinzento eram a base da casa e eu gostei logo disso. Tons neutros ou certos tons amadeirados tornam muito mais fácil de dar personalidade a um lugar. É um bocadinho como na roupa ou na maquilhagem: uma boa base neutra permite dar destaque às peças certas e eu queria uma boa base neutra para depois ter mais facilidade em dar cor a este lugar.
Nas primeiras semanas o sofá cinzento ganhou uma capa cor-de-rosa, as prateleiras da sala ganharam cor com livros e CDs e o verde das plantas (falsas e naturais) deu os pontos de cor certos. Na casa-de-banho fui buscar o amarelo-torrado. Ainda lhe falta uma planta artificial para ficar como a quero. No quarto, o edredão cor-de-rosa deu logo um ponto de cor.
Gostei de as bases serem branco e cinzento e não preto e branco. Ultimamente, o mundo tem parecido muito preto e branco, extremado. Ou é uma coisa ou é outra. Há muita gente com muitas certezas e opiniões fechadas. É como se o cinzento estivesse a perder lugar. Parece que o mundo se divide em dois e se não está num lado estás obviamente no outro. E as cinquenta sombras de cinzento que ficam pelo meio? Nem tudo é tão divisível entre sim e não, preto e branco, bom e mau. Estes binómios que habitam o mundo ultimamente tem-me ajudado a limpar muito daquilo que sigo na internet e fora da dela. O problema já não é só do algoritmo, é de um gosto particular pelo extremismo, pelo alimentar o ódio desmedido só porque sim, pelo destacar o que se detesta em vez de se destacar o que se adora.
Quando penso no meu mundo a perder cor, não o imagino a preto e branco, embora seja mais fácil de o mostrar assim. Primeiro, vem sépia. Como naquelas fotografias antigas que já contam uma história bem diferente da que aconteceu, porque a memória ultrapassou a realidade. Sépia é a primeira cor que me faz perceber que este mundo está a perder cor. Quando o que resta são memórias e as outras cores já não existem aqui. Depois, tudo fica desbotado. Não é que as outras cores deixem de existir. Mas já alguma vez te esqueceste de um casaco durante semanas num carro que ficou ao sol? Era verde tropa, ficou desbotado, naquela cor que nem é verde deslavado nem parece ser grande coisa, na verdade.
Num mundo preto e branco, qualquer outra cor se destaca e o cinzento traz o equilíbrio. Num mundo sépia, as outras cores não encaixam, tornam-se irrelevantes. Num mundo desbotado, as outras cores não importam porque aquela desbotou. Perante uma cor perdida, não há muito que as outras cores possam fazer para a curar ou substituir. Só mesmo aceitar que se perdeu para sempre.


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