life lately.

O meu lugar preferido do mundo para estar é entre palavras.

Bem… entre palavras e entre o Douro e a Circunvalação.
Gosto de batons, de cães e de incluir referências a Taylor Swift em qualquer conversa. 

Sabe mais sobre mim aqui.

diário de sofia|trabalho

O último ano mudou muito na minha vida e, por isso, tenho andado constantemente a tentar encontrar o ponto de equilíbrio certo. Com o fim do verão, acho que vou conseguir, por fim, recalibrar a rotina. Entre mudar de trabalho, passar a trabalhar em casa, habituar-me ao trabalho novo, testar novas rotinas, ver as rotinas constantemente abaladas por fatores externos, fazer alguns cursos, começar a procurar casa, a ansiedade crescente da casa onde estava, a contaminação dessa ansiedade para outras áreas da minha vida, a necessidade de mudar o chip para conseguir alguma leveza no trabalho, encontrar casa e fazer mudanças, aprender rotinas ainda mais diferentes, voltar a dar espaço a séries no meu dia-a-dia, viver o calendário preenchido do verão, aproveitar algum tempo em casa da minha mãe, viver a Feira do Livro do Porto e finalmente ter duas semanas de férias… bem, sinto que não paro para apreciar a vista para a ilha e para refletir há bem mais do que um ano.

Houve uma altura em que, quando os espaços em que escrevíamos online ainda tinham um certo aroma a diário, eu fazia um tipo de publicação ocasional chamada life lately. Era uma espécie de ponto de situação em que contava algumas coisas que tinham acontecido na minha vida nos últimos tempos (bem alargados), mas, sobretudo, eram um momento de partilha que lembrava a época em que contávamos muito mais da nossa vida na internet. Enquanto olhava para este prazo que dei a mim mesma — em setembro decides o que fazer com o conteúdo do Substack — pensei que só mesmo um life lately conseguia ajudar a dar algum ponto de continuidade.

Recuemos a maio de 2025…

Em maio de 2025 voltei de férias a pensar que queria ir estudar outra coisa que pudesse ajudar-me a dar um extra ao meu currículo e me ajudasse a conseguir um trabalho melhor. Estava cansada de ser canivete-suíço e ter em mim todas as responsabilidades e tarefas de um departamento. Não sabia o que queria ir estudar nem o que era o trabalho melhor, mas durante semanas olhei para programas de cursos e concluí que não ia fazer nenhum. Não tinha orçamento, é certo, mas sabia que ali, com aquela função e naquele local de trabalho, nunca ia conseguir conjugar trabalho e estudos. Se só a trabalhar me sentia mentalmente exausta todos os dias, como é que era suposto sair dali e ir estudar? Sim, sim, eu sei, é preciso fazer esforços, só os fracos é que desistem sem tentar, and so on. Mas eu tive um burnout em 2023, não planeava repetir a experiência… embora antes das férias me sentisse a caminhar para lá.

Então comecei a pensar novamente num tema que acabou por dar uma edição da newsletter vários meses depois: queria estudar porque queria aprender ou por síndrome de impostor? Tendo em conta que não sabia o que queria estudar, acho que a resposta é simples. Só queria algo que me ajudasse a ver caminhos para o futuro. E foi isso que fiz. O primeiro passo? Tinha de renovar o contrato que tinha. Essa renovação dava-me um ano para juntar mais algum dinheiro e tentar pensar no que fazer a seguir enquanto me aventurava novamente pela procura de trabalho.

Procurar trabalho em 2025 foi um bocadinho devastador. Depois as coisas mudaram e há um ano encontrei a vaga que me ia ajudar a mudar de direção para onde eu queria ir: conteúdos.

Aprender a trabalhar a partir de casa

Sei que temos tendência a romantizar o trabalho remoto e, honestamente, eu adoro trabalhar a partir de casa e sinto que o work-life balance melhorou muito, mas não deixa de ser preciso aprender a fazê-lo. A primeira coisa que percebi foi que não ia conseguir ser uma pessoa que trabalha do sofá ou da mesa de jantar. Não sei se é resultado de sempre ter tido secretária para estudar e escrever, mas senti logo que precisava de um espaço fixo de trabalho, com uma boa cadeira e, já agora, um ecrã extra para não estar só focada no ecrã pequeno do computador. Mas só ao fim do primeiro mês e meio me dediquei a preparar este espaço. Ter uma secretária para trabalhar ajudou muito a voltar ao ritmo comum de trabalho ao mesmo tempo que me ia habituando ao novo trabalho e às novas tarefas.

Além do espaço, para mim era importante não deixar a rotina derrapar, principalmente de manhã. Continuar a acordar à mesma hora, arranjar-me e tomar o pequeno-almoço com calma não era negociável — e ainda não é. Mas e o que fazer com o tempo extra que sobrava ao fim do dia? Tinha mil planos: estudar, escrever imenso, fazer exercício físico, ler imenso. Testei todos os planos, mas nos primeiros meses estava constantemente a ver os planos abalados porque algo fazia mudar a rotina e lá se ia o exercício, a leitura, a escrita… bem, pelo menos fiz uns cursos.

Percebi que a rotina que funciona para mim ao fim do dia inclui exercício, sim, mas não necessariamente todos os dias. Que nem sempre me apetece desligar o computador do trabalho para ir ligar o meu computador e escrever. Que nem sempre me apetece ler naquele horário. Como comecei esta semana um curso de dois meses, presencial, à quinta-feira à noite, vou testar uma rotina que depois quero tentar manter. Vamos ver como corre.

Mudar de casa…

Se procurar trabalho em 2025 quase exigia mais terapia, procurar casa em 2026 não lhe ficou muito longe. Precisava, por vários motivos, de sair da casa onde estava e comecei a procurar casa no primeiro dia do ano. O mercado imobiliário está como todos sabemos e eu não queria continuar a dividir casa. Sim, poupamos dinheiro. Mas ganhamos dores de cabeça, ansiedade, neuras, tampões de ouvidos para dormir e não há poupança de dinheiro que compense isso. Só que encontrar um t0 ou t1 que eu conseguisse pagar sem sufocar o meu orçamento foi uma tarefa muito difícil. Mesmo que, depois, conseguisse ter apoios à renda, tinha de conseguir pagar a renda sem esses apoios — até porque todos sabemos que esses apoios demoram meses a chegar. Demorei 5 meses a conseguir casa. Já estava em desespero, a sentir-me cada vez mais ansiosa na casa onde estava e sem forma de arranjar mais desculpas para passar tempo fora de casa para gerir a ansiedade.

Um ano depois do início desta odisseia, a meio de maio de 2026, mudei-me, com ajuda dos meus amigos, para um 4.º andar sem elevador. Mais um mês de roda-vida, de mudanças, arrumações e novo reajuste na rotina. Agora na parte ocidental da cidade, descobri zonas onde gosto efetivamente de fazer caminhadas e estou tão pertinho do Parque da Cidade que finalmente consigo cumprir o meu sonho de estar constantemente a ir lá. Também por estar sozinha habituei-me a ir ficando na sala à noite. Tinha voltado a ver séries uns tempos antes, mas, sozinha, tenho-me deixado levar pelas séries e pelos podcasts. Descobri que gosto mesmo destes serões. Mesmo que às vezes adormeça no sofá.

E tudo o resto?

Também por tudo o que foi mudando na minha vida (e que ultrapassa largamente aquilo que escrevi até aqui), acabei por mudar de ideias em relação a muito do que tinha decidido sobre o que queria fazer de conteúdos escritos este ano. Acho que 2026 está a ser um daqueles anos em que tenho de estar constantemente a recalibrar, repensar e refazer planos. Ao longo dos últimos meses, tenho pensado muito sobre o que ainda quero escrever. Este ano disse, pela primeira vez, as palavras que nunca achei que diria: não sei se alguma vez voltarei a escrever uma história. E sabes o que aconteceu? Absolutamente nada. O mundo não ruiu, as lágrimas não caíram, o coração não partiu. Em vez disso, a vida seguiu e, há uns dias, vinha no metro, olho pela janela e Ramalde decide contradizer-me e espetar-me com uma história na cabeça. Mas ainda não sei se a vou escrever. O que sei é que esta freguesia gosta muito de me contradizer.

Mas não escrevo só histórias, não é? Agora que o meu trabalho envolve maioritariamente escrita, tenho sentido que ganhei um novo propósito com as palavras. E não é que a escrita que faço no trabalho seja algo excecional ou criativo, mas às vezes chego ao fim do dia sem cabeça para pegar no meu computador para vir escrever os meus conteúdos e chego a ficar feliz por não ter cabeça para os meus conteúdos porque estive a escrever outros. Estive a escrever. O meu trabalho envolve escrever e trabalhar com palavras. Às vezes parece-me irreal. E nem sequer tenho tarefas de escrita todos os dias, mas, nos dias em que tenho, parece-me mesmo irreal.

Mas foquemo-nos nos meus conteúdos e deixemos os do trabalho, porque esse assunto é demasiado complexo para seguirmos por aí agora. Achei que este ano ia arrasar. Ia escrever mais no blog, ia ter ensaios longos no Substack… mas as ideias estão constantemente a mudar de data no calendário e o Substack tem por aqui ficado a ganhar pó e teias de aranha. Sim, tive de tomar um anti-histamínico antes de começar a escrever este texto, não fossem as alergias atacar em força.

Pelo meio, tenho escrito no blog. Não tanto quanto queria, mas estou a tentar. Tentar é importante, não é? Está bem, sendo honesta, não me preocupo assim tanto em tentar. É quando dá ou quando apetece. Por vezes fico stressada porque não me estou a preocupar por não escrever as minhas coisas ou por ter aderido a uma versão da leitora que era antes, quando não lia diariamente. Devia preocupar-me, não é? Já nem sei. Sei, isso sim, que tem sido importante para mim voltar a ter exercício físico regular, que tenho gostado de voltar a ver séries, que a semana tem de ter tempo para limpar a casa, supermercado, cozinhar refeições.

Há uns dias, fiz umas histórias no Instagram sobre o Harry Styles, o melhor gestor de carreira e de work-life balance que conheço. Aparentemente, ele está a ponderar fazer nova pausa depois de a tour terminar, no próximo ano. Entre o álbum anterior e o mais recente passaram quatro anos. Depois da tour, ele foi viver a sua melhor vidinha e fazer maratonas pelo mundo. Gosto desta ideia de ir viver um bocado antes de criar, de ter noção de que vida fora do trabalho (e a arte é o trabalho dele) é importante para uma melhor relação com o trabalho. Não crio o mesmo tipo de arte, mas tenho gostado de seguir este mote de ter uma vida saudável e variada para lá de tudo o resto — o trabalho, a escrita, essas coisas. Não deixa de me ser estranho contemplar seriamente a vida sem criar conteúdos online ou sem escrever histórias (ou histórias para escrever), mas é a primeira vez em que sinto que o único equilíbrio possível é o do desequilíbrio sem que isso me faça sentir mal.

E então cá tenho andado a tentar pensar como quero finalmente recalibrar, recolher um bocadinho e continuar a descobrir o passar das estações neste 4.º andar com a melhor vista para o pôr-do-sol. Acho que está na altura de recolher.


Algumas coisas que podes ter perdido…

Sobre livros, publiquei no blog algumas reviews curtas do que li de janeiro a março e de abril a junho. Alguns destes livros, como O país dos outros, da Leila Slimani, e Sótão, da Madalena Sá Fernandes, tiveram direito a publicações mais longas. Também escrevi um resumo do que foi a Feira do Livro do Porto este ano.

Noutros temas da vida, assinalei 11 anos de blog num paralelismo com a mudança de casa, fiz um apanhado deste ano com coisas que teria publicado se ainda estivéssemos na blogosfera de 2012 e comemorei 5 anos de Porto com alguns favoritos da cidade.

E ainda quero ir à vida profissional, porque este mês publicámos um guia prático que me acompanhou desde as primeiras semanas deste trabalho. O guia de Apoios para pessoas com doenças incapacitantes é um trabalho do qual me orgulho e que acho que pode, realmente, ajudar pessoas. A fase de escrita foi dura, mas acho que tive sorte por ter sido encaminhada da forma certa para tornar o guia mais abrangente e o trabalho de revisão dos meus colegas foi fundamental para o melhorar.


Gostas do meu trabalho? Paga-me um cappuccino: buymeacoffee.com/sofiacostalima

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